terça-feira, 25 de outubro de 2011
Eu não amo você.
domingo, 18 de setembro de 2011
Carta ao Amor.
Envio esta carta para te pedir que desocupe a parte que sobrou do que costumava ser o meu coração. Há coisas demais aí! Não há mais espaço para ti, nem para mais nada. E nem ninguém. Não, mais ninguém.
Peço também que avise aos teus companheiros de quarto (a Saudade, a Angústia, a Ansiedade e os demais agregados) para também se retirarem, pois, estes chegaram sem avisar ou sequer tocar a campainha e as dívidas não podem ser quitadas apenas com sofrimento.
E que se retirem rapidamente, nada de esperar o Tempo, pois este é um tratante! Demora a chegar e apesar do seu bom trabalho, não vale a pena deixar o recinto em cacos esperando a sua chegada. Eu mesmo o reconstruirei!
Por fim, peço que não façam alarde e que não danifiquem mais nada por aí. Pretendo vender o recinto o mais rápido possível, para quem quer que queira, se é que há. E se não o quiserem mais, quem sabe não o abandono? Só não quero alugá-lo a mais ninguém! Não, nem pensar.
E que me retorne com qualquer resposta que não sejam lágrimas.
Encarecidamente,
Luiz Amado.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
O poema vermelho.
E gritava os seus versos com precisão, as rimas fluíam de seu próprio corpo em tinta vermelha e iam espalhar-se no assoalho dando vida ao que era inegavelmente a maior das artes. O sofrimento expresso de modo concreto, os versos cor-de-carmim manchados com brutalidade no papel onde antes pisavam.
E tudo era sentimento: Das lágrimas secas ao redor de suas pálpebras à ira de seus pulsos arrastados contra o chão. Tudo era seu, tudo era arte. Tudo era apenas um poema, mas o maior deles. E no centro da grandiosa obra tinha a si mesma; em seu rosto, nada de sorrisos, nada de fingimento. Lá estava estampada a face que sempre possuiu por dentro: Aquela manchada de lágrimas e de sangue, mas de boca aberta, entalando um grito.
sábado, 23 de julho de 2011
Visita.
E lá estava ele batendo à sua porta de madeira apodrecida sob a luz da linda lua que subia aos céus, quase tão majestosa quanto a mulher que ali jazia. Sua por toda a madrugada.
Dali a pouco já estavam despidos e de corpo um no outro, num atrito gelado, embalados pelos urros que ele desferia aos quatro ventos, repetindo que a amava para que apenas as estrelas testemunhassem.
Por fim, se sentava, chorava um pouco, acendia um cigarro. Vislumbrava-a em seu frágil ser de porcelana, sem retribuição, enquanto a garota visava apenas o escuro véu de céu pendurado sobre as suas cabeças.
Então, quando o sol ameaçava pender sobre a linha do horizonte, vestia as roupas de sua amada com o mesmo cuidado criminoso - e apaixonado - que usou para despi-la. Daí volta a abraçá-la e beijá-la para só então devolvê-la ao seu túmulo e ir embora, carregando a mais suja e incontrolável das paixões em suas pesadas costas.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Maria Louca.
Tagarelava, tricotava, trepidava, tiquetaqueava, tornava e retornava. E o cuco, antigo amigo, carcumido em seu abrigo: Tão velho quanto ela, a velha.
- És tão engraçada! - respondeu a velha torta, virada para a porta - Há tempos ando sozinha, amiga galinha, sem ninguém para matar esta tristeza minha!
- Tic, tac. - respondia o passarinho, entrando e saindo do ninho.
- Não fosse tu, amigo urubu, estaria entregue, não negue. - e ia tricotando, marotando e desgastando.
- Tic, tac.
- Ora, esta já não tem mais graça! Outra piada, amiga garça, antes que eu fique cansada!
- Tic, tac.
- Arre! Mas que chata essa ave! - exclamou e não mais tricotou, a cara fechou e os punhos cerrou, se calou.
- Toc, toc.
- Cala-te!
- Toc, toc.
Que surpresa aquele ruído! Era na porta que haviam batido.
Foi o azar, a velha gritar:
- Pode entrar!
Mas qual foi a grande sorte: Quem batia era a própria morte.
sábado, 11 de junho de 2011
Deve ter sido um sonho.
Eu estava aqui remexendo os meus arquivos e achei um texto. É de 2009.
Achei tão cômico e bobo que acabei postando aqui no blog. Aproveitando o Dia dos Namorados e tal (desgraçado!). Bem, eu espero que gostem.
Acordou.
- Onde está o Michael, mãe?
- Michael?
- É. O Michael. O meu namorado.
- Querida, você não tem namorado.
- Como não?
- Você tem?
- Claro que tenho! O Michael! Nós dormimos juntos e...
- Você dormiu sozinha.
- Dormi?
- Dormiu.
- Mas...
- Deve ter sido um sonho, querida.
- É, deve ter sido.
Naquele momento, ela acordou pela segunda vez. Dessa vez, de verdade. Há dias em que você acorda e percebe que, simplesmente, sempre esteve sozinho.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Cães.
De luzes apagadas nada estava errado. Primeiro, a dor e as lágrimas. Depois, a culpa. Oras, não nos amávamos? O que há de errado em agir como amantes que éramos? Como os animais que éramos.
E ia, me preenchia, sem culpa, até que o meu sangue escorresse por sua barriga, até que eu implorasse pra parar. E levantava da cama, andava em círculos, não acendia as luzes. Não queria ver, nem lembrar. E me encontrar aos prantos era a maior prova do crime, do pecado. Como se não pudesse ouvir os soluços esganiçados que eu proferia através do escuro.
E cessavam-se os soluços, as lágrimas, ia-se o cheiro. Estávamos os dois sentados em lençóis sujos, no escuro. Silenciosamente.
Era sempre ele a quebrar o gelo, sua voz vinha sempre baixa, sibilante, pesada. Um cão rouco.
- Já está tarde. - sussurrava, no escuro, tateando em busca de uma das minhas mãos trêmulas. - Hora de ir, irmãzinha.