domingo, 20 de setembro de 2026

 

você me deixou sem defesas

artifícios, distrações

agora tudo o que acontecer,

seja lá o que for,

me encontrará sem véus sobre o rosto

sem lenços sobre as lágrimas

sem conter os sorrisos


apavorada, pois lembro da última

em que estive sem armaduras,

desmilitarizada, à paisana,

e pra onde tudo aquilo me levou:

pro aqui, agora, onde proteger-me

tem mais importância que encantar-me


você nem sabe, mas 

está me convidando a crer

ter fé mesmo, deixar o tempo acariciar as coisas

e lembrar eu mesma de ser doce comigo

como eu tenho sido com você;

já que essa é a única maneira 

de te reencontrar bem,

só se eu realmente for aquilo

que você vê em mim.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

 
acho que consigo entender quando

há algo sendo tirado de mim

para o meu bem;

há coincidências que são, na verdade,

certeiras

afiadas o bastante

para o cortar o caminho

em direção à coisa magnética

que te puxa 

para o olho da armadilha


há, no entanto,

bonitas armadilhas

que enquanto não te matam

te enchem de ocitocina

o frio da barriga do perigo

antes de fechar as lanças

sobre o seu corpo em êxtase


toda vez que me apaixono

eu me sinto uma ratinha

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

 

a sensação de estar sem chão

ou de estar no chão errado

sonhar só é bom quando te leva para 

onde você deveria estar


pêndulos, ponteiros, não dá tempo

a casa da gente é a que mais nos apavora

principalmente se você tem que voltar

sempre em momentos de desespero


mãe, não queria que você pensasse 

que só recorro a essa casa quando não tenho mais opções

mas o que é está posto e eu sou fraca demais pra admitir 

em voz alta

que tem muita coisa que eu não consigo

e sonhar longe de casa tem parecido um erro

porque nada mudou desde que saí;

e eu nunca consegui chamar outro lugar de casa

quarta-feira, 3 de junho de 2026

hoje só consegui chorar

queria não pensar que perdi um dia

que sou fraca demais pra tudo

e se eu precisar mudar tudo eu

continuarei aqui, chorando


e quando tudo isso passar eu 

vou fingir que sou feliz de novo

até todas as fontes secarem juntas, 

somente algumas semanas depois,

e eu me ver aqui de novo,

no mesmo lugar que prometi que 

era a última vez


sexta-feira, 24 de abril de 2026

G.

 a gente sempre se vê em flashes

tudo numa velocidade calma 

num amor pronunciado a sussurros

vi o medo nos seus olhos:

estar aqui comigo talvez seja se perder 

dei vertigem em você,

te vi desejar a queda livre

e hesitar sobre o precipício 


mas já conheço demais os seus olhos

para reconhecer o seu desejo

sei que um dia cogitou, sem tentar,

largar tudo, voar por aí,

sem pesos nos pés e na cabeça


acho tão lindo te ver sonhando

afinal só nos apaixonamos graças à fantasia

à bobagem de ousar passar um pouquinho do ponto

em silêncio, agradeço 

você um dia ter sonhado comigo 


daqui espero poder te ver vestido das suas asas

quando eventualmente tudo isso passar

eu não vou voar com você porque talvez 

eu também seja peso para os seus pés;

amarras para os seus pensamentos; e tudo bem,

eu só queria mesmo te ver de novo

devanear por mais alguns velozes segundos

porque mesmo estando em segundo,

sei que no fundo te dei algo que era muito especial para mim

e vi o brilho no seu olhar


é estranho estar grata por este segundo plano

mas encontrei tanta coisa boa 

nesses espasmos de encontros;

tanta risadagem, companheirismo sutil,

da escala do não-dito, mas inegavelmente sentido


agradeço tanto ter visto de perto seu sorriso

mesmo que com pressa, precisando estar em outro lugar,

mas querendo estar aqui

isso vale mais que tudo.