terça-feira, 2 de setembro de 2014

Carta.

Aracaju,

Ainda falta pouco mais de mês
— Um mês! 
Preu te deixar de vez
E não houve outro jeito
a não ser soterrar
esse buraco no meu peito:
Vou reaprender a chorar
(não seria justo regar com meu pranto
o solo de outro canto).

Os dias são trinta e nove
e o tempo agora não se move!
Olho arde, irritado:
Não é justo ficar piscando
quando o tempo tiver passado.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Sobre não guardar rancor.

raiva passageira é pingo evaporado no mar de rancor guardado que não mais deságua
nas águas
lamurientas,
chantagistas,
tão gentis
e egoístas
da minha alma.


(Dedicado a Yves Deluc, num momento de raiva. Vai passar, cara.)

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Viço.

mordaça firme
chacina garantida
se a voz é maculada
até raiva é reprimida

pernas de vidro?
olhos de isopor?
que a minha garganta seja filtro
regurgite toda a dor

tô plantado no mundo
eu sou filho do horizonte
meu amor é vagabundo;
mora embaixo da ponte

o amanhã que almejo?
utopia, invenção
mas não escondo mais meus beijos
dos seus olhos de opressão

nessa vida emparedada
quatro cantos: não há paz
é da relva da calçada
que as estrelas brilham mais



terça-feira, 10 de junho de 2014

Queria saber tocar violão
fazer rima, também
só pra cantar o quanto eu amo
não amar ninguém.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Cômodo.



Acontece que o caso causava uma cacofonia contundente. Catorze cavalos enclausurados num casebre decadente. Cantavam canções, contavam causos, cavavam cumes com os cascos de carbono. Cor-de-cobre, as correntes: da culpa eram crentes, acovardados. Carentes, mas não acordados.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

O corredor.

Às vezes acho que posso enxergar a minha vida como um corredor vazio. Um imenso corredor vazio e sem saída. Junto ao corredor, existem vários outros que se ramificam perpendicularmente e que também se encontram sem movimento algum. 

Corredores vazios, para mim, têm uma forte simbologia de que tudo pode acontecer apesar de não. Em um momento, ao tocar de um sino escolar ou em horários de visita convergentes, o espaço pode se encher de gente vinda dos espaços transversais, de possibilidades. Num instante, a parede ao fundo é obstruída e ele, o corredor, parece não ter um fim. Os momentos de movimento, no entanto, são raros, escassos. São de uma insignificância dolorosa.


Estou cansado dos cantos poeirentos do corredor da minha vida. Farto dos armários abandonados, dos leitos sem paciente algum, dos mesmos livros nas prateleiras. Triste pela efemeridade do toque do recreio, apavorado pela eternidade do toque de recolher.


 A eternidade do toque de recolher.