quarta-feira, 25 de março de 2015

Gravata.


o amor é como um tecido bem amarrado
na altura da jugular:
se não te mata asfixiado,
ao menos a roupa deve enfeitar.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Dicotomia.

quero escrever morte
e vida,
silêncio, sentença
chegada e despedida,
azar e sorte
amor, indiferença
pudor e safadeza
nudez e vestimenta
doçura, aspereza
a bondosa, a mesquinha
e tudo o que a gente separa
pela mais tênue das linhas.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Ditador.

Fiz das tripas cor,
ação
Pra que não chores sobre a lei
que tem te amarrado
A imprensa é inimiga da subversão,
você já ouviu o ditado?

Se o cavalo é fardado,
melhor proteger os dentes
Spray de pimenta em olho por olho
É quente, não é quente?

Em casa de empreiteiro,
a opressão é social
Devagar se vai ao longe, fio?
A bonança é um prato que se come...
...vazio

Não tire o seu cavalo da luta
Quem é bom já nasce puta
O que não mata, fortalece;
Quem é rico sempre enriquece, mané
E quem avisa amigo é

domingo, 11 de janeiro de 2015

Banquete.

Não esqueça do meu rosto
exposto
do meu crânio disposto
numa bandeja de mal gosto
e a minha face de desgosto
Não me meta a contragosto
na ciranda do tudo-imposto
Parta de outro pressuposto:
Eu nunca gostei do sexo oposto.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Saliva. Fogo. Expressão de raiva. Mais saliva. Muxoxo. Fogo. Fumaça. Cheiro forte. Comemoração. Troca de olhares. Fumaça. Toque de dedos. Tosse. Fumaça. Troca de olhares. Tosse. Olhar baixo. Toque de dedos. Saliva. Lábios queimados. Gargalhada.

Torpor.

 "Acho que apagou de novo."

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O Não-Romance: trecho 1

[...]

Novembro. Li a indiferença nos olhos dele. No entanto, não é a mente incansável em sua busca por felicidade? Na fuga da dor, regamos brotos de felicidade perpetuamente, tortuosamente; mudas inférteis de um destino que não existe senão por meio do delírio. Chego a me perguntar se é a vida que me priva a fortuna em demasia ou se fui eu a me apaixonar somente pelas improbabilidades no caminho.

Tenho um jardim de flores murchas. Cada muda parecia única, a princípio, mas o olhar já não as difere uma da outra: são todas pedaços amarronzados e fétidos do que o destino escolhera para mim. Como companheiro inseparável tive não o amor, mas o azar. O tropeço que gera o impulso a me colocar sobre os ladrilhos errados em todas as bifurcações.

Ciente da minha incapacidade, agora, recolho-me à minha própria alma. Quão monótona pode ser a vida quando não há fogo a ser alimentado?

Dezembro.

[...]

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Sem o alento dos olhos teus:

Não existiriam castelos,
muralhas,
ou jardins tão belos
Não se ergueriam torres,
não se sustentariam as casas
A brisa seria escassa,
morreríamos à inanição
As aves fechariam as asas
e morreriam entediadas
quando chegasse o verão;
As ceias seriam parcas,
os plebeus, esfomeados
E os pombos deixariam as cartas
todas em endereços errados
Os cavalos morreriam famintos
E, convenhamos, sem montaria
Meio não haveria
Para lhe dizer tudo o que sinto
À primeira hora do dia, então,
de uma quinta-feira de céu nublado
acordariam os cortesãos
dentro de um palácio incendiado
Correriam os escravos à beira do rio
E tal seria a surpresa, calafrio
Toda a água haveria evaporado
A corte, o rei, estaria tudo acabado!

Ninguém daria importância, no entanto
Em face de tal espanto,
mudariam-se os plebeus
Em meio às cinzas da cidade
Não haveria felicidade
Sem o alento dos olhos teus.