Os cadarços, um par;
Os sapatos, direito e esquerdo
Duas meias sujas de tanto andar
rápido de desespero
Logo depois foi a blusa vermelha
Antes da saia e do cinto listrado
Que escondiam a centelha
Que ele tanto tinha cobiçado
Sutiã arrancado fora
Calcinha tirada no dente
se mais um pouco lá demora
estaria certamente
suja
de sangue quente
Maria onze vezes berrou
cada grito era uma peça de roupa feminina
O vilarejo nem mesmo acordou
Ninguém presta
atenção
à rotina
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
terça-feira, 22 de setembro de 2015
Ferimento.
Eu tenho a dor de amar os que sentem
na boca do estômago arder
o ácido cotidiano
Tenho o desgosto de repudiar os que mentem
os que forçam-se a meter
a agonia goela abaixo, de ano em ano
Engana-se o que diz
"viver é bom demais, é indolor"
Engana-se o que é feliz
"não há como não querer viver num mundo tão cheio de cor"
Roubaram o colorido
O bonito
Agora é feio
Balizado, escondido
No fundo fedido
De um bloco malfeito
Erguido no seio
E com tanto asseio
No meio
Da gente
Eu só amo quem sente
O asfalto quente
Diariamente
Luta tanto e ainda mente:
"Vai ser melhor daqui pra frente"
na boca do estômago arder
o ácido cotidiano
Tenho o desgosto de repudiar os que mentem
os que forçam-se a meter
a agonia goela abaixo, de ano em ano
Engana-se o que diz
"viver é bom demais, é indolor"
Engana-se o que é feliz
"não há como não querer viver num mundo tão cheio de cor"
Roubaram o colorido
O bonito
Agora é feio
Balizado, escondido
No fundo fedido
De um bloco malfeito
Erguido no seio
E com tanto asseio
No meio
Da gente
Eu só amo quem sente
O asfalto quente
Diariamente
Luta tanto e ainda mente:
"Vai ser melhor daqui pra frente"
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
De composição.
Não se esqueça,
Morte e vida
são convenções:
é frequente
tanto morrer cheio de vida
quanto viver dentro de um túmulo
terça-feira, 1 de setembro de 2015
Onde eu moro.
Eu tentei sair de mim. Tentei as portas e até as janelas, martelei as paredes. Berrei, aos prantos:
"Alguém me tire daqui", alguém gritou de volta de novo e de novo, cada vez mais baixo, até sumir.
Escavei os chãos, pulei muros, chorei. Chorei porque percebi que, para sempre, eu estaria condenado aos meus erros e somente aos meus.
"Eu nunca vou saber como é ser outra coisa".
E se eu desacascasse a pele e o que tem embaixo, se eu me abrisse camada por camada pro avesso respirar?; poderia enfiar os dedos das mãos através da pele cortada, agarrá-la pelas bordas, dobrá-la ao contrário. Não adiantaria.
"Essa aí nasceu do avesso", meu pai dizia, "essa aí é ao contrário". Nasci do avesso, ao contrário. Virada pra dentro de mim mesma, de olhos fixos na escuridão do tempo que passa. Ouvindo o coração bater, bater, bater...
Ah, eu tentei sair de mim. Mas tudo em mim tem cancela, fechadura e chave nenhuma. Tudo em mim clama por me manter afogada, espalhada pelos cantos, escorrida dos olhos.
"Tudo o que morre dentro da gente vira lágrima", eu dizia, quando chorava do lado de fora.
Eu tentei sair de mim. Eu tentei!
Mas eu já nasci morta.
"Essa aí nasceu torta."
Que rima mais infeliz.
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
Sobre o amor que ninguém vê.
Para alguns de nós
amar é sempre triste
é uma espera incessante
por algo que sequer existe
É um abraço contido demais,
um constante desencontro
É um beijo que, sem avais,
se transforma em batida no ombro
É tudo o que fica escondido
atrás de olhos marejados,
um aceno constrangido,
do coração aos saltos
É tudo ao mesmo tempo
Morte, vida,
Conformação e desespero
É chegada e despedida
É insosso e é tempero
É um ruído silencioso
uma agonia quieta na mente
O antídoto mais venenoso
Pro abandono de toda essa gente
Amor é aquilo, não é isto
Crucifica, salva, aponta o réu
O amor é Jesus Cristo
E quando ele descer do céu
É profano mais que divino
É pouco Eike, mais Severino
É mais Slova que Cuervo
Mas vodka deixa um gosto ruim na boca
De qualquer jeito
É mais espingarda que 38
É ter dezoito
Ser preto
E não ser preso
Ao andar na rua
É chuva que não inunda as ruas de Aracaju
É deputado tomando no olho do cu
Dinheiro rasgado, abraço apertado,
É um monte de prédio derrubado
Pra não tapar o pôr-do-sol
Na orla de Atalaia
No Sábado
E nesse dia ninguém morreu
arremessado
De viaduto nenhum
São fogos de artifício
Na favela
É olhar no fundo do olho dela
E sentir um rebuliço
De beijar
E não machucar
É andar pela rua
e achar sem nexo
Tanta gente se amando
E ninguém do mesmo sexo?
Amar, de fato,
É não achar o amor errado
Seja ele pochete,
Seja ele mala,
Seja um pau sob uma saia,
Mesmo que não saia na manchete
Daquele famoso jornal
Que na capa dessa semana
Defende a redução
da maioridade penal
Amor é não ter um teto
e ainda assim sorrir de afeto
quando nasceu o bebê da Maria
Mas o amor também tá na dor
de Sofia,
a puta que não pariu,
porque não tinha um tostão
ou porque o marido João
interviu
Por não ligar pra afeto
ou pro feto
agora morto
depois do aborto
que Sofia não queria
Mas que morreria
Se não tivesse feito
Então não teve outro jeito
O amor é triste
Sequer existe.
amar é sempre triste
é uma espera incessante
por algo que sequer existe
É um abraço contido demais,
um constante desencontro
É um beijo que, sem avais,
se transforma em batida no ombro
É tudo o que fica escondido
atrás de olhos marejados,
um aceno constrangido,
do coração aos saltos
É tudo ao mesmo tempo
Morte, vida,
Conformação e desespero
É chegada e despedida
É insosso e é tempero
É um ruído silencioso
uma agonia quieta na mente
O antídoto mais venenoso
Pro abandono de toda essa gente
Amor é aquilo, não é isto
Crucifica, salva, aponta o réu
O amor é Jesus Cristo
E quando ele descer do céu
É profano mais que divino
É pouco Eike, mais Severino
É mais Slova que Cuervo
Mas vodka deixa um gosto ruim na boca
De qualquer jeito
É mais espingarda que 38
É ter dezoito
Ser preto
E não ser preso
Ao andar na rua
É chuva que não inunda as ruas de Aracaju
É deputado tomando no olho do cu
Dinheiro rasgado, abraço apertado,
É um monte de prédio derrubado
Pra não tapar o pôr-do-sol
Na orla de Atalaia
No Sábado
E nesse dia ninguém morreu
arremessado
De viaduto nenhum
São fogos de artifício
Na favela
É olhar no fundo do olho dela
E sentir um rebuliço
De beijar
E não machucar
É andar pela rua
e achar sem nexo
Tanta gente se amando
E ninguém do mesmo sexo?
Amar, de fato,
É não achar o amor errado
Seja ele pochete,
Seja ele mala,
Seja um pau sob uma saia,
Mesmo que não saia na manchete
Daquele famoso jornal
Que na capa dessa semana
Defende a redução
da maioridade penal
Amor é não ter um teto
e ainda assim sorrir de afeto
quando nasceu o bebê da Maria
Mas o amor também tá na dor
de Sofia,
a puta que não pariu,
porque não tinha um tostão
ou porque o marido João
interviu
Por não ligar pra afeto
ou pro feto
agora morto
depois do aborto
que Sofia não queria
Mas que morreria
Se não tivesse feito
Então não teve outro jeito
O amor é triste
Sequer existe.
terça-feira, 4 de agosto de 2015
Sala de aula.
Ser alguém
É viver enjaulado
e ainda assim dividir espaço
com toda essa gente
que vive todo o tempo sentada
E tem toda a vida
redigida
Em papel-moeda
Em fichários lotados
de rabiscos importados
da cabeça de outra pessoa
E por mais que doa,
essa gente eloquente
não é nada inteligente:
Sou o pior dos bandidos
Por não viver uma vida chata
Toda roteirizada
Em post-its coloridos.
essa gente eloquente
não é nada inteligente:
Sou o pior dos bandidos
Por não viver uma vida chata
Toda roteirizada
Em post-its coloridos.
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