terça-feira, 26 de abril de 2016

você
saiu da minha vida
e nem voltou
pra dar tchau
ou pra tirar o sal
que cê deixou
em cima das feridas
que eu mesmo abri
depois que percebi
que você
não voltaria



segunda-feira, 18 de abril de 2016

Saudade.

só há resíduos seus
aos poucos acumulando nos cantos
crostas cinzentas sobre os azulejos

há sobre a pele grudenta de desencanto
algo mais que ácaros e as marcas de seus beijos




terça-feira, 22 de março de 2016

Amor ópio.

eu que nunca quis amar
e nunca tive amor
encontro-me em mesas de bar
ou revirando gavetas
acho-me a gastar canetas
cada gole do copo, da tinta
é a prova mais sucinta
que de tanto não amar ninguém
acabei sendo quem,
no fim,
rejeitava amor a mim.

sábado, 19 de março de 2016

Março.

tenho me sentido sozinho
em todos os lugares
das multidões
às confissões a dois
à total escuridão
da luz apagada
e do toque do travesseiro
na bochecha cansada
de sorrir de mentira
dos olhos exaustos
de quem só chora
trancado no quarto

segunda-feira, 7 de março de 2016

Vênus em Peixes.

hoje, no ônibus,
acho que me apaixonei bem depressa
só não sei se por você
ou pela vontade de saber
o que tanto cê olhava
pela janela.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Faixa de pedestre.

minha tristeza está nas ruas
numa marcha lenta, fria
machucada nas mãos nuas
de dor, berra alto
o rosto arrastado no asfalto
aguardando acabar o dia

meu luto está no olhar indiferente
na pressa de toda essa gente
que pisa, cospe, ignora
mas que por dentro chora
de um vazio que lateja
peleja
e não vai embora

meu pranto, às vezes, é atropelado
por andar a pé
os carros vermelho-sangue
voltam pra perto do mangue
sem saber o quão triste é
ser deixado de lado

minha lágrima quando sobe o morro
abre a boca pra pedir socorro
mas de tão vivida
cala
bebe um copo d'água
para acalmar a mágoa
de nunca ser ouvida

depois ela senta no chão
enxuga o rosto com a mão
ajeita bem o papelão
e dorme tão tranquila
quanto os pés que a pisoteiam

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Tubular Bells.

[...]

Virei a esquina e tudo parecia ainda mais escuro. Somente um poste luzia no meio da rua; sua luz, no entanto, oscilava.

Algumas calçadas mal iluminadas exibiam silhuetas que projetavam a imagem de algo que poderia ser desde escombros de uma construção acabada à uma pessoa abaixada, à espreita.

Respirei fundo.

Segurei mais forte as alças da mochila e caminhei a passos largos, mal levantando a cabeça para enxergar o que estava ou o que não estava no meu caminho.

Na casa de andar da rua, alguém esperava de pé na varanda. Sua cabeça parecia estar virada em minha direção.

Foi então que, sob o poste, encontrei aquilo que aterroriza os meus sonhos até agora.

[...]