não pretendo me livrar dos meus complexos
quero que floresçam.
estou apórica
poucos olhos para perceber que estou à beira
abismos cheios d'água
fomes vagam, confundem-se
com desejos injetados em mim
abocanho meu próprio caminho
não me alimento de qualquer coisa
se nos portões encontro grades
descubro que já tinha as chaves faz tempo
amiga é aquela que avisa quando
você já passou muito tempo dando cabeçadas
e também a que não permite que a outra
inicie também a cabecear
para não deixá-la só.
paciência às vezes
é um excesso de cuidado
um não-me-toque
algo a se segurar ali no inaudito
as dúvidas são vermelhas
daquele frio tão frio
que queima
e ali mesmo enquanto queima,
como um adesivo,
já adere à pele.
imagine deitar dentro de uma cápsula deste gelo
você curvada,
os joelhos como apoio para o queixo
e as canelas como os escudos pontudos do peito
e - ainda assim - completamente desprotegida.
imagine a sensação deste abraço.
vou driblando barrancos
dando voltas em imensidões
contornando buracos pé ante pé
contando distâncias no infinito
tudo em vão
e à beira do vão
nada tem um tamanho tão grande.
repita:
nada tem um tamanho tão grande
vazios são infinitos porque
habitam o ar
deslizam por baixo das coisas
o lugar mais cheio que houver
estará repleto também
do nada.
pra abocanhar o mundo é preciso saber
atrasar o onde
esquecer como
desfazer o que ainda não foi feito.
escrevo aqui porque não consigo escrever acordada,
então recorro ao berço, aos choros rápidos, aos silêncios impróprios
se eu deveria falar cada vez que o tempo fecha
não há profecias meteorológicas que deem conta
do desarranjo nas minhas cordas vocais
e do nó cego nas minhas certezas.
sei que sou vasta
mas queria mesmo era ser minúscula
microscópica
acessível somente com equipamentos tecnológicos demais
assim você não entraria tão fácil aqui
neste mundo de coisas tão pequenas e tão permanentes.
o que fica é justamente aquilo que não dá pra ver.
passo os dedos nas extremidades do travesseiro
pareço sentir as cócegas que sentiria
meu maior erro foi aprender a dormir acompanhada
e gostar do primeiro abraço do dia, meu favorito
quando ainda deitada eu lembro
da sensação do calor encostando na pele
e ficando ali, sem sustos, misturando cheiros
entristece pensar que eu ficaria horas dentro desse abraço
só pra esquecer de mim
antes quando o calor me assustava e eu fazia de tudo pra dormir sozinha
eu acho que gostava mais de prestar atenção
o sapateado dos dedos pelas teclas
significa que estou mais uma vez
tecendo tecidos e tecidos de teorias
quilômetros de pano
em torno de besteiras.