Passavam rapidamente diante da minha vista, as pessoas. Ela passeou ao redor delas e então embrenhou-se, encolhendo os ombros, entre todos os traseuntes. Mas ela não era igual aos outros. Mesmo entre tantos, ela se destacava de modo tímido, delicado, sem muito alarde. Ia de um lado a outro, girava, tentava encontrar uma saída entre todos os ombros que barravam a sua passagem.
Cessei a minha andança ali mesmo, só para vê-la tentando abrir caminho entre o labirinto de indivíduos que eram, aos meus olhos, invisíveis e sem encanto algum.
Foi de um ombro a outro, de um empurrão a outro, até que seus joelhos cederam e ela se deixou cair neles, mas sem perder a suavidade dos jeitos.
Dirigi-me até ela, de mão estendida, sorriso no rosto. Eu poderia tê-la observado levantar de longe, com igual maciez, e se embrenhar na multidão, sem sequer imaginar que certa vez o meu olhar a espreitara. Mas teria eu oportunidade maior de olhá-la nos pequenos olhos e mostrar-lhe o quão importante aos meus olhos ela era? Que apenas a sua existência, uma vez embelezara toda um multidão em euforia?
Porém, ela não me deu a mão. Levantou-se, mas sequer mostrara interesse em me olhar na face. Limpou as roupas vagarosamente, sem preocupação, sem pressa. Depois deu-me as costas, sem fazer menção de que percebera a minha presença.
Impeli-me novamente em sua direção, persistente. Estendi novamente a mão, dessa vez almejando os seus ombros curtos e que mais pareciam de plástico tamanha era a delicadeza deles.
Ela virou-se em minha direção. Eu vi os seus olhos; e se esses eram eles, ainda não me foge a perplexidade. Com esses olhos frios que não lhe cabiam no rosto e que lhe dava na face a feição que a assemelhava a todos os outros.
- Não me toque.
Apenas isso disse e sumiu entre os outros rapidamente. Deixei-a ir, pois, não importavam os seus delicados ombros quando os seus olhos eram tão duros quanto pedra.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Permissão.
Silêncio.
- Você não pode fazer isso.
- Não seja rústico, pai! Eu já tenho dezenove anos!
- Você não vai namorar e ponto final!
- Vou. Com a sua aprovação ou sem ela.
- Não seja atrevida!
- E você, diga alguma coisa!
- O seu pai me assusta. De verdade.
Silêncio.
- Poderia ser qualquer menino! Mas não...
- Ah, então é isso!
- É, é isso.
Silêncio.
- Você não pode me impedir.
- Você já está me dando nos nervos.
- Eu ainda não entendi qual é o problema.
- Não entende?
- Não, eu não entendo.
- Você não pode namorar essa garota!
- Claro que posso!
- Você nunca me disse que era lésbica...
Silêncio.
- Você não pode fazer isso.
- Não seja rústico, pai! Eu já tenho dezenove anos!
- Você não vai namorar e ponto final!
- Vou. Com a sua aprovação ou sem ela.
- Não seja atrevida!
- E você, diga alguma coisa!
- O seu pai me assusta. De verdade.
Silêncio.
- Poderia ser qualquer menino! Mas não...
- Ah, então é isso!
- É, é isso.
Silêncio.
- Você não pode me impedir.
- Você já está me dando nos nervos.
- Eu ainda não entendi qual é o problema.
- Não entende?
- Não, eu não entendo.
- Você não pode namorar essa garota!
- Claro que posso!
- Você nunca me disse que era lésbica...
Silêncio.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Nunca fora.
Achei ter acordado. Ao lado dela. Os cabelos, os olhos, o rosto, o resto.
A mulher que me forçava a nutrir esses sentimentos incondicionais. Eu não diria amor incondicional, não. Mas furor incondicional, paixão incondicional, e até mesmo dor incondicional. Eu sei que isso é amor pra muita gente, mas pra mim ainda não é.
O que é amor pra mim? Ah, amor pra mim é como um estado de loucura. É, loucura. Uma mistura de sentimentos, alucinações e outras coisas mais que desnorteiam a mente. E tudo o que confunde a cabeça, pra mim, é loucura.
Pois bem, lá estava ela. Eu não havia visto quando ela chegou e nem escutado os seus passos ou o barulho da maçaneta girando. O que sei é que ela estava ali, ao meu lado. Talvez ela nunca tivesse ido. A sensação que eu tinha é de que ela sempre estivera ali, com a cara enfiada no travesseiro.
O seu cheiro continuava o mesmo; indescritível. Não era cheiro de rosas, ervas, essências ou coisas do tipo. Era o cheiro dela. Era único, simples, inconfundível.
Apenas o pensamento de sua ausência me cortava ao meio, me matava, me apagava. Se eu não a tivesse em minha cabeça, com certeza, não seria mais nada. Só uma metade solta. Totalmente sem sentido.
As minhas pálpebras então avisaram que a luz do sol já invadia o quarto, incomodadas. Abri-os, percebendo que não estavam abertos antes. Eu estava sozinho na cama, agarrado ao travesseiro dela, sentindo o seu cheiro...
A mulher que me forçava a nutrir esses sentimentos incondicionais. Eu não diria amor incondicional, não. Mas furor incondicional, paixão incondicional, e até mesmo dor incondicional. Eu sei que isso é amor pra muita gente, mas pra mim ainda não é.
O que é amor pra mim? Ah, amor pra mim é como um estado de loucura. É, loucura. Uma mistura de sentimentos, alucinações e outras coisas mais que desnorteiam a mente. E tudo o que confunde a cabeça, pra mim, é loucura.
Pois bem, lá estava ela. Eu não havia visto quando ela chegou e nem escutado os seus passos ou o barulho da maçaneta girando. O que sei é que ela estava ali, ao meu lado. Talvez ela nunca tivesse ido. A sensação que eu tinha é de que ela sempre estivera ali, com a cara enfiada no travesseiro.
O seu cheiro continuava o mesmo; indescritível. Não era cheiro de rosas, ervas, essências ou coisas do tipo. Era o cheiro dela. Era único, simples, inconfundível.
Apenas o pensamento de sua ausência me cortava ao meio, me matava, me apagava. Se eu não a tivesse em minha cabeça, com certeza, não seria mais nada. Só uma metade solta. Totalmente sem sentido.
As minhas pálpebras então avisaram que a luz do sol já invadia o quarto, incomodadas. Abri-os, percebendo que não estavam abertos antes. Eu estava sozinho na cama, agarrado ao travesseiro dela, sentindo o seu cheiro...
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Meu mundo é branco.
Braços presos nas costas. Tudo branco. Paredes de almofada. Tudo branco, sem cor.
- Mas branco não é uma cor?
- Cale-se, homem, me deixe pensar.
Não sei se controlo a minha mente ou a deixo livre pra pensar o que quiser. Seria mais fácil arrancá-la de meu corpo e deixá-la se confundir fora da minha cabeça.
- Deixe de besteira. Pensar é para os fracos.
- Você pode me deixar em paz?
- Não tem como, estou preso.
- Cale-se, então.
Às vezes mesmo o meu corpo perde o controle. Eu perco o controle. Ele perde o controle. É bem confuso tentar pensar que eu e ele habitamos um mesmo lugar. E eu não estou falando do quarto de hospício.
- É difícil ficar calado quando escuto os seus pensamentos.
- Tape os ouvidos, então.
- Saia da minha cabeça!
- Saia você do meu corpo.
É essa constante luta contra si mesmo que denomino loucura. Loucura puramente interior.
- Mas branco não é uma cor?
- Cale-se, homem, me deixe pensar.
Não sei se controlo a minha mente ou a deixo livre pra pensar o que quiser. Seria mais fácil arrancá-la de meu corpo e deixá-la se confundir fora da minha cabeça.
- Deixe de besteira. Pensar é para os fracos.
- Você pode me deixar em paz?
- Não tem como, estou preso.
- Cale-se, então.
Às vezes mesmo o meu corpo perde o controle. Eu perco o controle. Ele perde o controle. É bem confuso tentar pensar que eu e ele habitamos um mesmo lugar. E eu não estou falando do quarto de hospício.
- É difícil ficar calado quando escuto os seus pensamentos.
- Tape os ouvidos, então.
- Saia da minha cabeça!
- Saia você do meu corpo.
É essa constante luta contra si mesmo que denomino loucura. Loucura puramente interior.
domingo, 26 de setembro de 2010
Amor.
Amor? Isso nunca foi muito importante. Enquanto todos ao meu redor se estrebuchavam, contorciam, magoavam, gritavam, choravam, riam e eram felizes, eu simplesmente não amava, nunca.
Eu é que não quero amar! Amar é ficar vulnerável, não ser mais seu, sorrir quando não quer, chorar quando não precisa, morrer por outra pessoa, viver por dois. Se não é assim, não é amor.
Amor é irreal, surreal, coisa de livros. Amor é coisa psicológica que nasce de um afeto grande ou, algumas vezes, é problema mental. Tem gente que ama um hoje, outro amanhã e outro depois de amanhã. Mas amor não é coisa eterna, que martela o coração da gente até o próprio parar de martelar?
Amor bombeia nas veias, deixa sequela, deixa tontura, deixa alívio, deixa saudade, deixa mágoa, deixa ódio, deixa tristeza, alegria, euforia, ansiedade, decepção e aquele tanto de outras coisas que nunca passam. Nunca passam.
Amor é não ligar pro resto. É estar sempre disposto a tentar e estar, ás vezes, pronto para acabar. É não segurar as lágrimas, os sorrisos, as palavras; é não se segurar. É viver saltitante, serelepe, rodopiante. É ter sempre alguém na mente, seja chorando, seja sorrindo, seja gritando, seja caindo, pedindo ajuda, ajudando... Ah, amor é besteira!
Amor é irreal, surreal, coisa de livros...
Eu é que não quero amar! Amar é ficar vulnerável, não ser mais seu, sorrir quando não quer, chorar quando não precisa, morrer por outra pessoa, viver por dois. Se não é assim, não é amor.
Amor é irreal, surreal, coisa de livros. Amor é coisa psicológica que nasce de um afeto grande ou, algumas vezes, é problema mental. Tem gente que ama um hoje, outro amanhã e outro depois de amanhã. Mas amor não é coisa eterna, que martela o coração da gente até o próprio parar de martelar?
Amor bombeia nas veias, deixa sequela, deixa tontura, deixa alívio, deixa saudade, deixa mágoa, deixa ódio, deixa tristeza, alegria, euforia, ansiedade, decepção e aquele tanto de outras coisas que nunca passam. Nunca passam.
Amor é não ligar pro resto. É estar sempre disposto a tentar e estar, ás vezes, pronto para acabar. É não segurar as lágrimas, os sorrisos, as palavras; é não se segurar. É viver saltitante, serelepe, rodopiante. É ter sempre alguém na mente, seja chorando, seja sorrindo, seja gritando, seja caindo, pedindo ajuda, ajudando... Ah, amor é besteira!
Amor é irreal, surreal, coisa de livros...
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Preto e branco.
- Não dá mais.
Ele disse isso sem olhar em meus olhos e por mais falso que parecesse, acreditei.
O tempo, apenas o tempo era o culpado.
- Você tem certeza? - perguntei, em desespero - Não tem mais... volta?
O silêncio entre as respostas era tão grandioso que, durante ele, eu conseguia ouvir os meus tímpanos latejarem.
E a parte mais inquieta de mim batia sem parar, bombeando o resto da frustração.
- Não.
De repente, tudo estava mais deserto. Não éramos só nós dois, afinal. De repente, eu percebi que não havíamos apenas nós ali. Percebi que havia um mundo ao nosso redor. Percebi a praça, a igreja, o escuro, a angústia. Não havia mais espaço para mim em mim. Percebi que eu andava com as minhas próprias pernas. E o mais doloroso: vi que ele também podia caminhar sem mim.
Tudo em preto e branco.
Levantei-me do banco, controlando as lágrimas. Tudo parecia tão longe. Ele parecia estar tão longe. Não era a mesma coisa. Não éramos mais os mesmos.
- Não vá agora. - pediu, quase como uma súplica, para meu espanto - Ainda é cedo. Fique até as nove.
Nada disse, apenas voltei a sentar. O que eu sentia era algo muito maior que frustração, paixão, alívio, dor, desespero, amor... Abandono.
O silêncio nos matou lentamente naqueles poucos e derradeiros minutos; os últimos.
Eram oito e cinquenta e nove agora e não restava quase nada de nós.
- Agora você pode me deixar ir? - perguntei, mesmo sem ter certeza se a minha voz saíra ou não.
Ele apenas assentiu, fitando o chão, sem olhar para mim.
Ergui-me, enquanto o sino da igreja iniciava a sua batida.
Nove horas.
Os passos vieram instantaneamente, mesmo sem aviso prévio. Quando dei por mim estava indo embora, deixando a correnteza escapar das minhas pálpebras.
- Ei! - chamou ele, às minhas costas - Você não pode ficar até dez?
- Não. - balbuciei, antes de sair andando pela praça escura, em meio à torrente de lágrimas.
Ele disse isso sem olhar em meus olhos e por mais falso que parecesse, acreditei.
O tempo, apenas o tempo era o culpado.
- Você tem certeza? - perguntei, em desespero - Não tem mais... volta?
O silêncio entre as respostas era tão grandioso que, durante ele, eu conseguia ouvir os meus tímpanos latejarem.
E a parte mais inquieta de mim batia sem parar, bombeando o resto da frustração.
- Não.
De repente, tudo estava mais deserto. Não éramos só nós dois, afinal. De repente, eu percebi que não havíamos apenas nós ali. Percebi que havia um mundo ao nosso redor. Percebi a praça, a igreja, o escuro, a angústia. Não havia mais espaço para mim em mim. Percebi que eu andava com as minhas próprias pernas. E o mais doloroso: vi que ele também podia caminhar sem mim.
Tudo em preto e branco.
Levantei-me do banco, controlando as lágrimas. Tudo parecia tão longe. Ele parecia estar tão longe. Não era a mesma coisa. Não éramos mais os mesmos.
- Não vá agora. - pediu, quase como uma súplica, para meu espanto - Ainda é cedo. Fique até as nove.
Nada disse, apenas voltei a sentar. O que eu sentia era algo muito maior que frustração, paixão, alívio, dor, desespero, amor... Abandono.
O silêncio nos matou lentamente naqueles poucos e derradeiros minutos; os últimos.
Eram oito e cinquenta e nove agora e não restava quase nada de nós.
- Agora você pode me deixar ir? - perguntei, mesmo sem ter certeza se a minha voz saíra ou não.
Ele apenas assentiu, fitando o chão, sem olhar para mim.
Ergui-me, enquanto o sino da igreja iniciava a sua batida.
Nove horas.
Os passos vieram instantaneamente, mesmo sem aviso prévio. Quando dei por mim estava indo embora, deixando a correnteza escapar das minhas pálpebras.
- Ei! - chamou ele, às minhas costas - Você não pode ficar até dez?
- Não. - balbuciei, antes de sair andando pela praça escura, em meio à torrente de lágrimas.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Para todos aqueles...
Para todos aqueles que já perderam o tempo;
Que já perderam pessoas;
Que já perderam memórias;
Que já perderam os sentidos;
Que já perderam sentimentos;
Que já perderam chances;
Que já perderam sabores;
Que já perderam a graça;
Fundamentado aqui, está: "E quanto ao tempo?"
Que já perderam pessoas;
Que já perderam memórias;
Que já perderam os sentidos;
Que já perderam sentimentos;
Que já perderam chances;
Que já perderam sabores;
Que já perderam a graça;
Fundamentado aqui, está: "E quanto ao tempo?"
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