sexta-feira, 31 de maio de 2019

Escrita Automática XII

de três em três 
posto fotos
dou murros em ponta de faca
agora funcionou?
sou bonita? desejada?
dias pra planejar a saída
giletes pela superfície do corpo
filtrada ao vivo e a cores
pelas suas mãos 
de que cor eu sou?
de que cor eu devo ser?
dói me ver?
dói me presenciar passar?
tenho trabalhado para causar isso
um desconforto incontrolável
em quem ousar olhar nos meus olhos
indecifravelmente ávida pelos trocadilhos
troco isso por aquilo
minha cabeça pelos meus quadris
eu sou meu início, meu meio 
e quero ser o meu fim

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Escrita Automática XI

tenho falhado de forma horrenda nas coisas principais
cuidar de mim e dos outros
descobri que não quero
não pretendo de forma alguma
cuidar dos outros
talvez porque eu mesma tenha
mais feridas do que a minha vida
que certamente será curta e dolorosa
- dolorosa já tem sido até demais -
me dá de tempo ou disposição
pra pensar em mais alguém
além
de mim
eu sou assim

domingo, 19 de maio de 2019

Escrita Automática X

o meu lugar pra voltar é
a morte,
a sorte,
e o que mais houver de coisa
que não tem teto
e nem se pode alcançar consciente

sexta-feira, 8 de março de 2019

Escrita Automática IX

sempre que sento pra escrever
falo de mim
eu
eu
eu
eu
não sei bem
o que isso significa
essa peça narcisista
que não sai do próprio projeto de mundo
não fala do pôr do sol
das belezas da natureza
passa o dia no espelho
não em frente, dentro
tentando pular a janela

quinta-feira, 7 de março de 2019

Escrita Automática VIII

juntar os pensamentos todos
num lugar só
tem sido a coisa mais difícil
desde que eu aprendi
que esquecer é melhor

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Faço questão de não entender o que eu digo.

só lá fora o tempo passa
- aqui dentro eu sou a mesma -
os mesmos sonhos desde criança
a mesma aversão ao meu corpo prisão
as janelas abertas da alma não mais existem
sobrevivo pouco
reflito demais sobre nada
cada passo um milhão de anos
um bocado de cicatrizes
nos pensamentos da minha cabeça
sem dinheiro para apagar a conta
pago muito do que não tenho
para continuar de pé no parapeito
sem coragem nenhuma de dar o passo
eu não passo
permaneço a mesma sem asas
ou amortecedores
da queda restam só as dores
pernas mancas
para gritar em silêncio
precisei ficar tão distante
que não entendo mais a necessidade
de caminhar sem rumo ou com rumo
tanto faz
não tenho chaves tilintando no bolso
tampouco fôlego
- permaneço cansada -
não falo,
não aponto,
não vejo mais nada
até o ponto de não mais me notarem
à beira
sou túmulo
de mim mesma

sábado, 22 de setembro de 2018

Parei de escrever porque só escrevia a dor. E parecia que ela era tudo sobre mim.

Hoje eu tenho muito mais dores, mas bem menos vontade de fortalecê-las. Passo muito tempo pensando em mim e nas minhas; muito menos tempo pensando no amor dos outros. Quero o amor das outras. 

Tenho lutado pra não me perder de vista. Mas confesso que não faço ideia de onde estou, muito menos de para onde ir.