terça-feira, 10 de setembro de 2024

 

pedaços vazios 

saber que era pra cá que eu voltaria

sempre me empolgou como uma forma de 

finalmente

estar de volta 

o ar não é mais rarefeito

a visão não anda mais turva,

pelo contrário,

adquiriu uma profundidade que nunca conheci antes


há um jeito de cicatrizar uma coisa 

e a pele que ali cresce, depois de doer e coçar,

consegue ser mais forte do que a que estava ali antes;

talvez não pela aparência manchada,

mas por ter sido feita daquilo que era mais improvável:

sua própria morte

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

 

para esquecer é preciso de coragem

também

porque o retrato de mim que ela leva consigo

rapidamente não será mais eu; e respectivamente

lembrarei de alguém que não mais existe

me perguntarei se ainda amo alguém

que já foi levada pelo tempo


essa é a armadilha que armei para mim mesma

quando resolvi ficar a mais

sendo um alvo invisível


está tudo bem comigo;

exceto pela vontade imensa

de nunca ter largado tudo

como seria? onde eu estaria agora?

talvez aqui, no mesmo lugar

escrevendo fagulhas que um dia foram raiva;

e hoje não são nada

além de frustração, que, por sua vez,

às vezes se disfarça de sentimento nenhum

então é realmente como se eu não fosse capaz

de sentir.

quarta-feira, 31 de julho de 2024


todo um trajeto marcado por rastros de águas

que já evaporaram


quando choro é como se

eu voltasse fisicamente para o momento da memória

e então consigo dizer que pouca coisa mudou

desde a última vez que escrevi


aqui dentro sou a mesma criança

dura na queda, difícil de morrer

impossível de se convencer


a culpa por sentir tanto e saber

que nem todo ouvido está pronto

que nem todo abraço será acalanto

me condena a uma solidão silenciosa

embalada pelo gotejamento dos pingos

de lembrança líquida


eu lembro demais, de tudo

e o que eu me esforço para esquecer

parece ficar ainda mais aceso

porque essa dança não se pode dançar consciente


costurar seus próprios pedaços

depois ser frágil entre quatro paredes

pelo medo de ser vista mancando, ainda imperfeita

vale a pena?


foi muita água antes que eu me abrisse pra você

mesmo que agora pareça que eu não lembro mais;

mas o corpo lembra


espero os rios reassumirem seus cursos

recobrarem suas correntezas

enquanto navego essas histórias 

num redemoinho



segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

 

de todas as vezes que escrevi sobre você

essa é a que menos alivia

porque sei que agora te fazer carinho

só causaria mais dor


hoje que você ama outra pessoa

com disposição para amar sem limites

sem medos

sem chance de acabar sozinha sem saber


eu sei o que aconteceu,

mas não sei o que acontecerá agora


todas as vezes que ouvir My Mind

vou automaticamente sentir o mesmo frio na barriga

que antes era bom e agora é tão incômodo

ouvir Hugh Mundell cantar

que pensa na menina que o deixou e foi embora

olhar para nós e não saber

quem deixou quem

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

De novo sol

 

se nos próximos dias

sentir saudade do seu cheiro

juro que vou

fazer de tudo pra distrair a vontade

não tem amor que pague a calma

e eu nunca vivi nenhum carinho que fosse brando

sempre um cheiro de fumaça…


se te deixei incensar todos os cantos do meu quarto

foi porque não tive escolha a não ser sonhar 

e outra vez o sonho me diz que eu não moro nesse tempo

tudo acaba assim 

em água 


lembro de ter certeza que te amaria pra sempre

enquanto atravessávamos  de barco

e você me ensinou o que era uma península


desculpa não poder ficar,

sigo repetindo isso

pra você e pra mim

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

não se manipula faíscas

 

saltam tão rápido

que escapam ao toque

viram pequeninos borrões

somem pra algum outro lugar


acredito, sim

que o incêndio de agora

pode ter sido causado por um fogo

que apagou ontem


se nuvens possuídas por cargas elétricas

realmente existem

é porque entre o céu e a terra

o fogo caminha invisível


sábado, 28 de outubro de 2023

 

nascer num ninho de fogo tem seus fardos

deixar marcas é uma sina que carrego comigo

feita de pele, me queimo em meus próprios incêndios

e até que eu perceba que agora o solo ficará finalmente fértil

preciso cuidar das carnes vivas

e do medo de voltar a manipular faíscas

em algum momento parece 

que tudo que se inicia é o prenúncio de um desastre natural

(e não é acidental)