sábado, 19 de março de 2016

Março.

tenho me sentido sozinho
em todos os lugares
das multidões
às confissões a dois
à total escuridão
da luz apagada
e do toque do travesseiro
na bochecha cansada
de sorrir de mentira
dos olhos exaustos
de quem só chora
trancado no quarto

segunda-feira, 7 de março de 2016

Vênus em Peixes.

hoje, no ônibus,
acho que me apaixonei bem depressa
só não sei se por você
ou pela vontade de saber
o que tanto cê olhava
pela janela.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Faixa de pedestre.

minha tristeza está nas ruas
numa marcha lenta, fria
machucada nas mãos nuas
de dor, berra alto
o rosto arrastado no asfalto
aguardando acabar o dia

meu luto está no olhar indiferente
na pressa de toda essa gente
que pisa, cospe, ignora
mas que por dentro chora
de um vazio que lateja
peleja
e não vai embora

meu pranto, às vezes, é atropelado
por andar a pé
os carros vermelho-sangue
voltam pra perto do mangue
sem saber o quão triste é
ser deixado de lado

minha lágrima quando sobe o morro
abre a boca pra pedir socorro
mas de tão vivida
cala
bebe um copo d'água
para acalmar a mágoa
de nunca ser ouvida

depois ela senta no chão
enxuga o rosto com a mão
ajeita bem o papelão
e dorme tão tranquila
quanto os pés que a pisoteiam

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Tubular Bells.

[...]

Virei a esquina e tudo parecia ainda mais escuro. Somente um poste luzia no meio da rua; sua luz, no entanto, oscilava.

Algumas calçadas mal iluminadas exibiam silhuetas que projetavam a imagem de algo que poderia ser desde escombros de uma construção acabada à uma pessoa abaixada, à espreita.

Respirei fundo.

Segurei mais forte as alças da mochila e caminhei a passos largos, mal levantando a cabeça para enxergar o que estava ou o que não estava no meu caminho.

Na casa de andar da rua, alguém esperava de pé na varanda. Sua cabeça parecia estar virada em minha direção.

Foi então que, sob o poste, encontrei aquilo que aterroriza os meus sonhos até agora.

[...]

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Mãe.

seus olhos sinceros
cheios d'água
a fala arrastada
um tom de mágoa
a vida toda passou chorada
derramada

lá dentro da carne, de verdade
uma centelha de liberdade
cava desvairada feito fera
e o mundo a espera.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

A dolorosa.

Os cadarços, um par;
Os sapatos, direito e esquerdo
Duas meias sujas de tanto andar
rápido de desespero

Logo depois foi a blusa vermelha
Antes da saia e do cinto listrado
Que escondiam a centelha
Que ele tanto tinha cobiçado

Sutiã arrancado fora
Calcinha tirada no dente
se mais um pouco lá demora
estaria certamente
suja
de sangue quente

Maria onze vezes berrou
cada grito era uma peça de roupa feminina
O vilarejo nem mesmo acordou
Ninguém presta
atenção
à rotina