terça-feira, 7 de junho de 2016
Amor em preto ou branco.
o amor
é coisa de pele o amor
da pele de cada um
e é tão de pele o amor
que por causa da minha cor
não me sobrou nenhum
poesia sobre amar
tem em todo lugar
tá na ponta da caneta
mas cê nunca fala de gente preta
porque é mais fácil deixar pra lá
na escola o amor eu li e só
porque se seu cabelo tem nó
e não cresce lisinho até o cu,
se seu olho não é azul
se seus traços não são delicados
se o seu nariz cresce pros lados
e seu lábio parece dois
como é que faz depois
pra ser
amado?
você diz que amar cura
mas eu sei da minha amargura
agora sei de onde vim
se for amor, porém
não espero mais de ninguém
além de mim.
sábado, 28 de maio de 2016
Perímetro.
apressado
eu
passo
você
acha
engraçado
diz que eu tenho rebolado
enche a boca e grita
— viado!
não caiu a sua ficha?
sempre que cê grita "bicha"
é como um chamado
eu paro, sem jeito,
a sua porta
sorrio, mando beijo
grito de volta:
— obrigado!
sábado, 14 de maio de 2016
parece erro dos dedos ao digitar
mas eu te ano
como nunca pensei anar
pouco tempo fez
e eu tanto te mês
que sentir já não me engana
eu te quinzena, te semana
você nunca imaginaria
o quanto eu te dia
e que a distância é um açoite
é ferimento de espada
eu te noite
te madrugada
nesse tempo diminuto
já te minuto
no girar do mundo
eu tanto te segundo
que em milésimos de centésimos
depois de períodos enésimos
tempo, espaço
te tique
te taque
te metro
te quilômetro
te relógio e te termômetro
em tempos de amor mudo
posso parecer louco
mas tanto te tudo
que qualquer tempo é muito
pouco
mas eu te ano
como nunca pensei anar
pouco tempo fez
e eu tanto te mês
que sentir já não me engana
eu te quinzena, te semana
você nunca imaginaria
o quanto eu te dia
e que a distância é um açoite
é ferimento de espada
eu te noite
te madrugada
nesse tempo diminuto
já te minuto
no girar do mundo
eu tanto te segundo
que em milésimos de centésimos
depois de períodos enésimos
tempo, espaço
te tique
te taque
te metro
te quilômetro
te relógio e te termômetro
em tempos de amor mudo
posso parecer louco
mas tanto te tudo
que qualquer tempo é muito
pouco
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Timóteo 5:5-6
Tive sede, mas não me movi. Queria evitar os espelhos no caminho até a cozinha.
Sentei-me à luz da janela, a qual havia deixado meio aberta para, de vez em quando, entreolhar o lado de fora. Tanto quanto o quarto, a rua estava vazia, o chão molhado, o céu nublando e desnublando de hora em hora, sem saber se chorava ou não chorava, se anoitecia ou se a luz do dia já era triste o bastante.
Flores por todos os lados. Coroas, arcos, jarros de pálidos crisântemos congestionavam a vista. Não estavam ali de enfeite, mas sim porque o cheiro floral disfarçava o da putrefação.
Esquecido sobre a cama, um corpo. A pele era de um escuro claro, as mãos morreram feito garras, os dentes amarelados como as pontas dos dedos, os cabelos crespos quebradiços espalhados pelo chão e pelo travesseiro, lábios enormes ressecados feito pedregulho. Tinha calos nas mãos e nos pés: nos pés porque vestira sapatos apertados demais durante toda a vida e nas mãos pelas cartas que escrevia incansavelmente. Nunca as enviava. Às vezes, amassava os manuscritos em bolas de papel e enfiava na boca, mastigava, engolia, as dobraduras iam pontudas arranhando a garganta por dentro, tossia do gosto amargo da tinta, nunca cuspia, chorava, arrependia-se. Algumas palavras não conseguia lembrar novamente depois — quando tentava reescrever tudo aquilo que fora goela abaixo.
A porta do quarto era de madeira como um caixão, a da sala era madeira também, mas caixões podem ser de vidro e do material que quiser que seja, a única exigência é que nunca seja escolha do cadáver. As portas poderiam simbolizar os caminhos, as novidades, desejos profundos, as pernas abertas do mundo, a angústia de não pertencer a lugar nenhum que não se encontre da pele para dentro, chorar é jogar fora o que morreu nas entranhas.
Morrer, morrer, morrer.
Um dia se abre os olhos e a vida é toda sobre a morte.
Funerais ocorrem o tempo todo. Ao ar livre, entre quatro paredes de cimento, de gesso, de tapume, enfeitadas ou não, sob um teto ou não, há o pranto, o silêncio, a incontrolável risada, de dia, de noite, em oração ou em silêncio, de mãos dadas ou afastadas pelo tempo, a mágoa sempre há, pode-se estar em multidão ou a dois. Há funerais sem cadáver algum.
Tenho cortado limões ao meio e espetado cravos neles. As moscas, no entanto, permanecem. O ruído é insuportável. A morte só é silenciosa para quem morre.
Olhei o lado de fora, a rua vazia, o cheiro forte, os olhos fechados, as mãos como garras, as lágrimas secas, as poças no chão, o forte zumbido, eu não quero morrer, soluço, o lápis sobre a mesa, o sol escondido, a noite nunca chega, eu não quero morrer.
Por favor, não me deixe aqui.
terça-feira, 26 de abril de 2016
segunda-feira, 18 de abril de 2016
Saudade.
só há resíduos seus
aos poucos acumulando nos cantos
crostas cinzentas sobre os azulejos
há sobre a pele grudenta de desencanto
algo mais que ácaros e as marcas de seus beijos
aos poucos acumulando nos cantos
crostas cinzentas sobre os azulejos
há sobre a pele grudenta de desencanto
algo mais que ácaros e as marcas de seus beijos
terça-feira, 22 de março de 2016
Amor ópio.
eu que nunca quis amar
e nunca tive amor
encontro-me em mesas de bar
ou revirando gavetas
acho-me a gastar canetas
cada gole do copo, da tinta
é a prova mais sucinta
que de tanto não amar ninguém
acabei sendo quem,
no fim,
rejeitava amor a mim.
e nunca tive amor
encontro-me em mesas de bar
ou revirando gavetas
acho-me a gastar canetas
cada gole do copo, da tinta
é a prova mais sucinta
que de tanto não amar ninguém
acabei sendo quem,
no fim,
rejeitava amor a mim.
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