raspei fora o resto de você que ficou agarrado na parede mas os cantos são sempre difíceis não importa se a faca é afiada tento com as unhas mas elas estão todas roídas porque passo a maior parte do meu tempo sozinho preocupado com a sua solidão e com o estado das paredes do seu quarto sem saber se você já mandou pintar ou se elas ainda estão sujas de mim mas no fundo eu sei que é bobagem já que as suas unhas sempre foram muito grandes e bonitas e não seria problema nenhum tirar um tempo do dia pra me raspar fora da parede pro chão e depois de uns dois dias já que você não é lá muito caprichoso com limpeza do chão pra uma bolsa plástica que uns três dias depois desce a escada nas mãos de outra pessoa porque você sempre teve nojo de pegar em lixo
segunda-feira, 11 de julho de 2016
sábado, 18 de junho de 2016
Movimento.
dei pra ler os versos dela
é difícil dizer quando
bem que me pego recitando
ouvindo a voz da dor que ela
remenda e vai costurando
aos poucos, no cotidiano
-
a fala que ela tira do peito
rasga a garganta e chega à boca
rumina um gosto suspeito
uiva os versos feito louca
depois penso que sente acelerar o coração
anda embora minha inspiração.
é difícil dizer quando
bem que me pego recitando
ouvindo a voz da dor que ela
remenda e vai costurando
aos poucos, no cotidiano
-
a fala que ela tira do peito
rasga a garganta e chega à boca
rumina um gosto suspeito
uiva os versos feito louca
depois penso que sente acelerar o coração
anda embora minha inspiração.
quarta-feira, 8 de junho de 2016
Feriado.
em Janeiro
eu prometi
disse pra mim
que mudaria tudo
até Abril
mas Fevereiro chegou
e tudo mudou
em Março
eu só
queria
o seu abraço
sem ter que contar
quanto tempo ele dura
a vida é dura
mas pior é não saber
se até Dezembro cura
a vontade de te ver
logo eu
que nunca lembro
de marcar
no calendário
os dias em que
fui feliz
terça-feira, 7 de junho de 2016
Amor em preto ou branco.
o amor
é coisa de pele o amor
da pele de cada um
e é tão de pele o amor
que por causa da minha cor
não me sobrou nenhum
poesia sobre amar
tem em todo lugar
tá na ponta da caneta
mas cê nunca fala de gente preta
porque é mais fácil deixar pra lá
na escola o amor eu li e só
porque se seu cabelo tem nó
e não cresce lisinho até o cu,
se seu olho não é azul
se seus traços não são delicados
se o seu nariz cresce pros lados
e seu lábio parece dois
como é que faz depois
pra ser
amado?
você diz que amar cura
mas eu sei da minha amargura
agora sei de onde vim
se for amor, porém
não espero mais de ninguém
além de mim.
sábado, 28 de maio de 2016
Perímetro.
apressado
eu
passo
você
acha
engraçado
diz que eu tenho rebolado
enche a boca e grita
— viado!
não caiu a sua ficha?
sempre que cê grita "bicha"
é como um chamado
eu paro, sem jeito,
a sua porta
sorrio, mando beijo
grito de volta:
— obrigado!
sábado, 14 de maio de 2016
parece erro dos dedos ao digitar
mas eu te ano
como nunca pensei anar
pouco tempo fez
e eu tanto te mês
que sentir já não me engana
eu te quinzena, te semana
você nunca imaginaria
o quanto eu te dia
e que a distância é um açoite
é ferimento de espada
eu te noite
te madrugada
nesse tempo diminuto
já te minuto
no girar do mundo
eu tanto te segundo
que em milésimos de centésimos
depois de períodos enésimos
tempo, espaço
te tique
te taque
te metro
te quilômetro
te relógio e te termômetro
em tempos de amor mudo
posso parecer louco
mas tanto te tudo
que qualquer tempo é muito
pouco
mas eu te ano
como nunca pensei anar
pouco tempo fez
e eu tanto te mês
que sentir já não me engana
eu te quinzena, te semana
você nunca imaginaria
o quanto eu te dia
e que a distância é um açoite
é ferimento de espada
eu te noite
te madrugada
nesse tempo diminuto
já te minuto
no girar do mundo
eu tanto te segundo
que em milésimos de centésimos
depois de períodos enésimos
tempo, espaço
te tique
te taque
te metro
te quilômetro
te relógio e te termômetro
em tempos de amor mudo
posso parecer louco
mas tanto te tudo
que qualquer tempo é muito
pouco
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Timóteo 5:5-6
Tive sede, mas não me movi. Queria evitar os espelhos no caminho até a cozinha.
Sentei-me à luz da janela, a qual havia deixado meio aberta para, de vez em quando, entreolhar o lado de fora. Tanto quanto o quarto, a rua estava vazia, o chão molhado, o céu nublando e desnublando de hora em hora, sem saber se chorava ou não chorava, se anoitecia ou se a luz do dia já era triste o bastante.
Flores por todos os lados. Coroas, arcos, jarros de pálidos crisântemos congestionavam a vista. Não estavam ali de enfeite, mas sim porque o cheiro floral disfarçava o da putrefação.
Esquecido sobre a cama, um corpo. A pele era de um escuro claro, as mãos morreram feito garras, os dentes amarelados como as pontas dos dedos, os cabelos crespos quebradiços espalhados pelo chão e pelo travesseiro, lábios enormes ressecados feito pedregulho. Tinha calos nas mãos e nos pés: nos pés porque vestira sapatos apertados demais durante toda a vida e nas mãos pelas cartas que escrevia incansavelmente. Nunca as enviava. Às vezes, amassava os manuscritos em bolas de papel e enfiava na boca, mastigava, engolia, as dobraduras iam pontudas arranhando a garganta por dentro, tossia do gosto amargo da tinta, nunca cuspia, chorava, arrependia-se. Algumas palavras não conseguia lembrar novamente depois — quando tentava reescrever tudo aquilo que fora goela abaixo.
A porta do quarto era de madeira como um caixão, a da sala era madeira também, mas caixões podem ser de vidro e do material que quiser que seja, a única exigência é que nunca seja escolha do cadáver. As portas poderiam simbolizar os caminhos, as novidades, desejos profundos, as pernas abertas do mundo, a angústia de não pertencer a lugar nenhum que não se encontre da pele para dentro, chorar é jogar fora o que morreu nas entranhas.
Morrer, morrer, morrer.
Um dia se abre os olhos e a vida é toda sobre a morte.
Funerais ocorrem o tempo todo. Ao ar livre, entre quatro paredes de cimento, de gesso, de tapume, enfeitadas ou não, sob um teto ou não, há o pranto, o silêncio, a incontrolável risada, de dia, de noite, em oração ou em silêncio, de mãos dadas ou afastadas pelo tempo, a mágoa sempre há, pode-se estar em multidão ou a dois. Há funerais sem cadáver algum.
Tenho cortado limões ao meio e espetado cravos neles. As moscas, no entanto, permanecem. O ruído é insuportável. A morte só é silenciosa para quem morre.
Olhei o lado de fora, a rua vazia, o cheiro forte, os olhos fechados, as mãos como garras, as lágrimas secas, as poças no chão, o forte zumbido, eu não quero morrer, soluço, o lápis sobre a mesa, o sol escondido, a noite nunca chega, eu não quero morrer.
Por favor, não me deixe aqui.
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