segunda-feira, 6 de março de 2017

Te escrevo dos trilhos de um trem.

te escrevo dos trilhos de um trem
da beira de um penhasco
como quem entorna inteiro 
um frasco de veneno
no intuito de molhar os lábios
te escrevo as tesouras sem ponta
e os bisturis mal amolados
te escrevo da tela
novinha em folha que comprei
pra revestir a janela
do décimo sétimo andar
das faixas de pedestre apagadas
mas percebidas de última hora
como o remédio errado 
colocado pra fora
te escrevo bem de perto da saída de emergência
dos chumbinhos vencidos
das ambulâncias pontuais
e dos cortes profundos
com folhas de papel ofício
te escrevo dos buracos rasos
dos incêndios em galpões vazios
das quedas livres sobre camas elásticas
e da respiração boca-a-boca que você me faz
quando eu finjo que me afogo

domingo, 5 de março de 2017

Escrita automática IV

equilibro-me sobre a sola dos meus pés
entrego-me muito pouco
estou sempre à beira
ouço as paixões ondularem, sereias,
mas se aceno
escondo os olhos

encalhei no meio do oceano
não sou terra firme pra ninguém
afogo só as pontas dos dedos
pra levá-los à boca
e sentir o gosto salgado
como aqueles que ousam mergulhar
e se perder de vista
no fundo do amar

Recital de poesia.

todos entram
sentam
pomposos em seus trajes de gala
eis que desliza a cortina
revelando uma pequena menina
e sua única fala:
- Quero muito um hamburgão!
a cortina é novamente fechada
e depois de ovacionar a menina
a multidão parte em disparada
para o Marcinho Lanches, logo na esquina

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Meia embreagem.

no futuro
quando os seres humanos finalmente 
tiverem rodas no lugar dos pés
estará extinta a ocorrência da pegada
e das lojas de sapato
que darão seus lugares a grandes letreiros
da American Racing

também darão fim à podolatria
que é como chamam o fetiche pelos pés
mas apesar do gosto metálico
a rodolatria promete ser a nova tendência
dos sites de pornografia

o número de mortes no trânsito,
no entanto,
continuará inalterado
uma vez que a nova forma de locomoção
facilitará bastante
o contrabando de armas


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Emoldure ou leve no bolso.

acorde
levante
vista a sua roupa mais
desconfortável
assim ficará óbvio pra todos
o quanto você tem se esforçado
pra manter as aparências
não esqueça de fechar todos os zíperes
de deixar os dentes bem escovados
ajeite a gola da sua camisa
e também a de qualquer um que a tenha esquecido
fora
do
lugar
enxágue bem o mau hálito
deixe a cavidade bucal preparada
pra todas as coisas que vão te forçar a engolir
no dia de hoje
não se mostre vulnerável
sorria sem olhar nos olhos
ou se olhar
desvie
antes que seja tarde
ao chegar em casa
durma
e se, devido à angústia,
não conseguir
preste atenção no passo-a-passo a seguir:
se for casado ou casada finja orgasmos faça promessas vazias diga que bonitos são seus olhos mas não olhe dentro deles ou fale de dinheiro se quiser evitar problemas
se for solteira solteiro ensaie demonstrações de carinho pra se distrair depois jogue-as todas fora dentro de si
a opção mais viável serve a qualquer estado civil
as farmácias permanecem abertas de madrugada
mas chorar soluçando até cansar os olhos
ainda é o mais eficaz dos soníferos

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

De molho.

hoje lembrei
que faz tempo que não trepo
as roupas no varal

imagine só: 
visto as vestes somente
para que as tirem
de modo que
há uma gritante inutilidade
no ato de lavá-las com frequência

Essa poesia vai acabar antes que você perceba.

a enxaqueca autocausada
é a mais perigosa das armas
que uma pessoa angustiada
pode usar contra si mesma

a mão estica
e num gesto singelo
agarra o martelo

não esqueça
que antes que a fenda apareça
o martelo martela a cabeça
e no intuito urgente
de estilhaçar a mente da gente
abre-a