quarta-feira, 15 de março de 2017

Visão periférica.

se fôssemos cachorros,
perceberíamos:
o caco sempre está cheio
quando o humano decide
dar-lhe veneno.

terça-feira, 14 de março de 2017

Tornozelo.

não sei se o amor é uma pedra
no meio do meu caminho
ou se a pedra sou eu
insistentemente fincado
imóvel, feito estátua
como quem, incerto,
anseia tanto pela solidão
que com as própria mãos
pega a corda, ata o nó
e se ancora
finalmente só
no meio do deserto

quinta-feira, 9 de março de 2017

Os vestidos dos poemas sempre são azuis.


as cortinas do apartamento
têm o mesmo balanço
daquele seu vestido azul
acho que é o mesmo tecido
as cortinas
e o vestido
um dos seus preferidos

agora balançam sozinhos os panos
sem a presença de suas pernas
atravessadas bem no meio
do buraco das roupas

posso amarrar a cortina
em volta da minha cintura
mas em nada as minhas pernas
parecem
com as suas

segunda-feira, 6 de março de 2017

Te escrevo dos trilhos de um trem.

te escrevo dos trilhos de um trem
da beira de um penhasco
como quem entorna inteiro 
um frasco de veneno
no intuito de molhar os lábios
te escrevo as tesouras sem ponta
e os bisturis mal amolados
te escrevo da tela
novinha em folha que comprei
pra revestir a janela
do décimo sétimo andar
das faixas de pedestre apagadas
mas percebidas de última hora
como o remédio errado 
colocado pra fora
te escrevo bem de perto da saída de emergência
dos chumbinhos vencidos
das ambulâncias pontuais
e dos cortes profundos
com folhas de papel ofício
te escrevo dos buracos rasos
dos incêndios em galpões vazios
das quedas livres sobre camas elásticas
e da respiração boca-a-boca que você me faz
quando eu finjo que me afogo

domingo, 5 de março de 2017

Escrita automática IV

equilibro-me sobre a sola dos meus pés
entrego-me muito pouco
estou sempre à beira
ouço as paixões ondularem, sereias,
mas se aceno
escondo os olhos

encalhei no meio do oceano
não sou terra firme pra ninguém
afogo só as pontas dos dedos
pra levá-los à boca
e sentir o gosto salgado
como aqueles que ousam mergulhar
e se perder de vista
no fundo do amar

Recital de poesia.

todos entram
sentam
pomposos em seus trajes de gala
eis que desliza a cortina
revelando uma pequena menina
e sua única fala:
- Quero muito um hamburgão!
a cortina é novamente fechada
e depois de ovacionar a menina
a multidão parte em disparada
para o Marcinho Lanches, logo na esquina

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Meia embreagem.

no futuro
quando os seres humanos finalmente 
tiverem rodas no lugar dos pés
estará extinta a ocorrência da pegada
e das lojas de sapato
que darão seus lugares a grandes letreiros
da American Racing

também darão fim à podolatria
que é como chamam o fetiche pelos pés
mas apesar do gosto metálico
a rodolatria promete ser a nova tendência
dos sites de pornografia

o número de mortes no trânsito,
no entanto,
continuará inalterado
uma vez que a nova forma de locomoção
facilitará bastante
o contrabando de armas