quinta-feira, 20 de julho de 2023

 

agora que passou a tempestade

ainda não consigo ver nada

tanta fuligem e vapor de água no ar


você mexeu com o meu mundo

descampou todos os meus quintais 

e mesmo sabendo que às vezes 

a terra precisa queimar para voltar à vida

tenho medo de não ser fênix 


trovões anunciam a chegada da chuva

então eu meio que já sabia desde o dia

que você me deu flores numa encruzilhada

ali eu me apeguei a tudo,

menos a mim.

me doei além do que você me pediu;

me doeu além do que você me pediu.


não sei o que fazer com cicatrizes imaginárias 

invisíveis, não tenho o que esconder


você vai se assustar quando me vir em carne viva de novo?



segunda-feira, 26 de junho de 2023

Canção sobre um anjo

 

queria te dizer um tanto de coisas bonitas

que não digo nem para mim mesma

queria te fazer promessas que, eu sei, são vazias

mas acho que o meu tempo aqui acabou


eu disse um dia que aguentaria

carregar nas costas a pesada geografia

criar músculos e dobrar a terra

mas sempre que tento só há vapor

tudo escapa das minhas mãos...


espero que não precisemos escrever cartas

porque estou cansada de escrever

e não sei redigir nada além de poemas


queria dizer que é a nossa última dança na chuva

mas quem sabe um dia de céu azul

te encontre na rua

na Faustina ou na Boa Vista

e de repente comece a chover


domingo, 11 de junho de 2023

desaparecer

é um evento
apenas aparente

não existe algo
que simplesmente 
pare de fazer parte

como localizar aquilo
as moléculas daquilo 
desprendidas
da incapacidade dos meus olhos?

terça-feira, 6 de junho de 2023

Máquinas têm sede

céu vazio

as nuvens estão dormindo


assim como nós, quando sonhamos,

nos dissipamos por aí 

entre um mundo e outro 

estar aqui e 

desaparecer 


quando um satélite fotografa a água 

depara-se com o seu próprio reflexo?

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Saudade de casa #7

 lembro que uma vez, minha mãe,

 disse que não queria ter paz 

 que o movimento era o meu lugar,

 o Caos.

 agora que eu conheci a paz 

 me sinto estranha:

 nunca me acostumei a ter abrigo 

 e agora que tenho e que amo 

 parece que deixei um pouco de ser eu.

 da janela os desencontros me incomodam menos;

 deixar para a próxima não assusta mais;

 plantar distâncias dá bons frutos;

 envelhecer virou um desejo.

 tu me virou do avesso, mãe?

 ironia ter te pedido o Caos e agora 

 me sentir estranha quando eu tive justamente 

 o que eu pedi.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Afiadas ternuras.

 sempre que estou prestes a perder

 rebobino até o primeiro momento

 o som agudo das fitas arranhando os tímpanos

 

 o momento em que me tornei tão analítica

 estrategista

 não faz parte da minha história: 

 com licença,

 estou me protegendo de ameaças invisíveis.

 tem alguma coisa muito preciosa, frágil,

 quebradiça, irrecuperável aqui dentro

 eu só não sei o que é ainda.


 vejo tudo em porcelana

 todos os cheiros são pólvora

 sob todas as superfícies há sangue

 e sobre todas as superfícies 

 há sangue; as maiores guerras não-registradas da História

 acontecem dentro de mim.