A beata ainda se pergunta se ele já estava lá quando ela chegou ou se sentara ao seu lado depois. O que sabe é que durante o quarto ou quinto Pai-Nosso, dirigiu-lhe a palavra:
- Ei, psiu, moça! Moça! Por que rezas?
Voltou-se pra ele, estranhando seus trajes escuros e o capuz que lhe cobria o rosto. E num súbito de incredulidade, voltou-se de olhos novamente no altar, crendo na inexistência duma pergunta direcionada a si.
- Falo contigo, moça. - continuou o homem, de modo a dificultar ser ignorado dessa vez - Por que rezas?
A mulher cria ser vítima duma brincadeira ou jogo, então não deu rodeios:
- Rezo para Deus, para me manter em seu caminho. Para me manter de pé.
Uma pausa silenciosa sob o capuz. Talvez um riso.
- E por que acreditas em Deus?
Fosse o que fosse, a brincadeira começava a incomodá-la.
- Ora, não há motivo para acreditá-lo. É a minha fé.
- Você nunca viu Deus.
- E é por isso que é fé.
- Você não tem provas de que ele existe.
- Mas acredito.
- Você deve estar precisando de algo. O que é?
- Apenas estou fazendo a minha oração...
- Dinheiro? Uma casa? Um carro?
- Não estou...
- Um homem, talvez?
- Só estou orando!
- Orações também não são baseadas em pedidos? Não é tudo vaidade?
- O que queres?!
- E a vaidade não é um pecado?
Ela não queria escutar mais e voltou-se em sua oração, tentou concentrar-se, remexeu-se. Estava inquieta. Que queria aquele sujeito?
E, sussurrada ao pé do ouvido dela, veio a pergunta que a fez arrepiar-se por inteiro.
- E no Diabo, acreditas?
Assustou-se. Respirou fundo. Deixou-se abalar. Estava ainda mais inquieta, temerosa. Já fora tudo longe demais.
- O que queres de mim?
- O que queres de Deus?
- Deixa-me em paz!
- Falta-lhe dinheiro?
- Vai-te!
- Falta-lhe paz? Ou falta-lhe amor?
Ela ficou em silêncio. Fosse por não ter mais respostas, fosse por estar cansada ou por medo.
- Eu sabia. - murmurou o sujeito, recostando-se no banco, rindo alto - Todos vocês são iguais. Todos iguais.
A mulher fixou-se em sua oração, de olhos fechados, coração aos saltos. E, ao reabrir os olhos, encontrou-se a sós.
Quão silencioso era aquele homem pra retirar-se sem ser notado?
Sabe-se-lá porquê, mas a beata nunca voltara a pôr os pés naquela igreja. Como pretexto, diz ter conversado com o próprio Diabo ali.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Picadeiro.
- Ora, vamos, o público já está esperando há tempo. - disse o Palhaço, com um aceno impaciente de mãos.
- Uma dama precisa de mais do que isso para estar pronta. - rebateu a outra, resistindo à pressão.
- Ha! - como um bom palhaço, ele zombou - Minha cara, cá pra nós, damas não têm pêlos na cara!
- Mas que ousadia!
- Vamos parar com essa briga, senhores. - interrompeu o Mágico, adentrando a pequena tenda de ceroulas e cartola na mão - Deixe que a dama se vista como quer, Palhaço. O público pode esperar mais um instante.
- Você ainda está de ceroulas? - já perdera a paciência há muito tempo, o Palhaço - Mas será possível...
- O que estamos esperando? - o intrometido malabarista já tinha a cabeça atravessada na abertura do recinto - Ah, claro, sempre a Mulher Barbada...
- Ignorantes! - esbravejou a mulher, que era a mais máscula entre todos os presentes - Tenho muito o que aprontar! Maquiagem, figurino, cabelo...
- O da cabeça ou o do queixo? - e lá vinha o anão, saindo de baixo de uma pilha de tralhas jogadas ao canto por algum outro circense descuidado.
- Mas ora...
- Cale-se você também, anão. - mas que mandão era o Palhaço! - E trate de preparar o picadeiro, antes que te esmague de um pisão!
- Mas para quê preparar o picadeiro agora? Se ainda nem as tranças na barba a mulher aprontou! - o mágico já não estava mais só de roupas de baixo, afinal. - E onde será que eu deixei a minha cartola?
- Epa! - foi o que escapou do malabarista enquanto caía sobre o anão.
- Mas será possível!?
- Agora só falta o vestido! - levantou-se a Barbada, dirigindo-se ao empoeirado guarda-roupa e a arrancando dele um imenso vestido que, pelo tamanho, notava-se que só dela poderia ser.
- Ótimo, ótimo. - resmungou o Palhaço, que já sentado estava -Anão, o que ainda faz aqui? Vai preparar o picadeiro como te mandei!
- Mas o que tenho que preparar naquela jossa? - apesar de pequeno, o homenzinho tinha lá a sua valentia - Não é só entrar lá e fazer toda aquela gente rir?
- Deixa o anão em paz, homem! - o mágico se pronunciou - A propósito, alguém aí viu a minha cartola?
- Ajuda-me com o vestido, Malabarista! - apesar de grande, o vestido não coubera em toda a grandiosidade daquela mulher, se é que compreendem.
- Lá vem a rolha-de-poço... - murmurou ele, segurando a parte de trás dos trapos da outra.
- Como é que é?
- Mas é verdade! - se intrometeu o Palhaço, de zombaria. - Precisa fazer um regime ou nem a lona vai entrar em você, mulher!
- Ignorantes!
- Onde será que coloquei essa cartola?
- Estão escutando? Eles já estão gritando!
- Anão, vá fazer o que mandei!
- Mas não há o que fazer...
- Como vou fazer o meu número sem a cartola?
- Ih, madame, o vestido não vai entrar...
- Mais rápido, mulher! O público já está em borbulhos!
- Como não vai entrar? Usei esse vestido há pouco tempo.
- Mas engordou em pouco tempo, também.
- Palhaço, para de escândalo e me ajuda a procurar a minha cartola.
- Você está me chamando de gorda?
- O público vai acabar derrubando o circo desse jeito...
- Alguém pode me ajudar a procurar a minha cartola?
E assim fez-se a confusão.
- Uma dama precisa de mais do que isso para estar pronta. - rebateu a outra, resistindo à pressão.
- Ha! - como um bom palhaço, ele zombou - Minha cara, cá pra nós, damas não têm pêlos na cara!
- Mas que ousadia!
- Vamos parar com essa briga, senhores. - interrompeu o Mágico, adentrando a pequena tenda de ceroulas e cartola na mão - Deixe que a dama se vista como quer, Palhaço. O público pode esperar mais um instante.
- Você ainda está de ceroulas? - já perdera a paciência há muito tempo, o Palhaço - Mas será possível...
- O que estamos esperando? - o intrometido malabarista já tinha a cabeça atravessada na abertura do recinto - Ah, claro, sempre a Mulher Barbada...
- Ignorantes! - esbravejou a mulher, que era a mais máscula entre todos os presentes - Tenho muito o que aprontar! Maquiagem, figurino, cabelo...
- O da cabeça ou o do queixo? - e lá vinha o anão, saindo de baixo de uma pilha de tralhas jogadas ao canto por algum outro circense descuidado.
- Mas ora...
- Cale-se você também, anão. - mas que mandão era o Palhaço! - E trate de preparar o picadeiro, antes que te esmague de um pisão!
- Mas para quê preparar o picadeiro agora? Se ainda nem as tranças na barba a mulher aprontou! - o mágico já não estava mais só de roupas de baixo, afinal. - E onde será que eu deixei a minha cartola?
- Epa! - foi o que escapou do malabarista enquanto caía sobre o anão.
- Mas será possível!?
- Agora só falta o vestido! - levantou-se a Barbada, dirigindo-se ao empoeirado guarda-roupa e a arrancando dele um imenso vestido que, pelo tamanho, notava-se que só dela poderia ser.
- Ótimo, ótimo. - resmungou o Palhaço, que já sentado estava -Anão, o que ainda faz aqui? Vai preparar o picadeiro como te mandei!
- Mas o que tenho que preparar naquela jossa? - apesar de pequeno, o homenzinho tinha lá a sua valentia - Não é só entrar lá e fazer toda aquela gente rir?
- Deixa o anão em paz, homem! - o mágico se pronunciou - A propósito, alguém aí viu a minha cartola?
- Ajuda-me com o vestido, Malabarista! - apesar de grande, o vestido não coubera em toda a grandiosidade daquela mulher, se é que compreendem.
- Lá vem a rolha-de-poço... - murmurou ele, segurando a parte de trás dos trapos da outra.
- Como é que é?
- Mas é verdade! - se intrometeu o Palhaço, de zombaria. - Precisa fazer um regime ou nem a lona vai entrar em você, mulher!
- Ignorantes!
- Onde será que coloquei essa cartola?
- Estão escutando? Eles já estão gritando!
- Anão, vá fazer o que mandei!
- Mas não há o que fazer...
- Como vou fazer o meu número sem a cartola?
- Ih, madame, o vestido não vai entrar...
- Mais rápido, mulher! O público já está em borbulhos!
- Como não vai entrar? Usei esse vestido há pouco tempo.
- Mas engordou em pouco tempo, também.
- Palhaço, para de escândalo e me ajuda a procurar a minha cartola.
- Você está me chamando de gorda?
- O público vai acabar derrubando o circo desse jeito...
- Alguém pode me ajudar a procurar a minha cartola?
E assim fez-se a confusão.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Impasse.
Estavam sozinhos apenas os dois. Ora se fitavam, ora fitavam o chão, ora fitavam o céu. Ora brotavam as lágrimas, ora brotavam os risos, ora não estavam mais lá. Ora se aproximavam, ora se repeliam, ora nem se notavam.
E seja lá qual fosse o impasse que impedisse o entrelace de seus braços, de seus corpos, de suas mentes, de suas almas... Desconheciam o que os afastava cada vez mais, mais pra longe. E o que os aproximava por vezes, mais pra perto.
Ambos tinham esse poder de amar a tudo e a todos, mas de escolher apenas um ao outro para se entregar em totalidade.
E quando se afastavam, já não era a mesma coisa. Reservavam-se em si mesmos e seguiam um para cada lado, esqueciam-se. Para que, num reencontro, pudessem libertar-se de tal prisão sem rodeios, sendo o que realmente são: amantes. Isso os resumia melhor que qualquer outra coisa.
E seja lá qual fosse o impasse que impedisse o entrelace de seus braços, de seus corpos, de suas mentes, de suas almas... Desconheciam o que os afastava cada vez mais, mais pra longe. E o que os aproximava por vezes, mais pra perto.
Ambos tinham esse poder de amar a tudo e a todos, mas de escolher apenas um ao outro para se entregar em totalidade.
E quando se afastavam, já não era a mesma coisa. Reservavam-se em si mesmos e seguiam um para cada lado, esqueciam-se. Para que, num reencontro, pudessem libertar-se de tal prisão sem rodeios, sendo o que realmente são: amantes. Isso os resumia melhor que qualquer outra coisa.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
A pianista.
Espreitando à porta entreaberta, vislumbrei-a enquanto se entretia no seu passatempo. De olhos fixos ia percorrendo as teclas, arrancando os mais lindos tons. Arrancando-me grande sensação de paz, seguida de uma inquietude angustiante.
Se movia graciosamente, sem perder os selvagens olhos, que nada fitavam e que tudo notavam. Não intimidou-se com minha presença, não. Prosseguiu com dedos firmes, olhos firmes, corpo firme. Sua postura mantinha tal retitude que chegava a ser dolorosa de se ver.
Vestia um vestido elegante, mas que se escondia sob a sua própria elegância; mesmo se estivesse enfiada em trapos não perderia este encanto nos trejeitos.
Os cabelos esvoaçantes enchiam o cômodo de um aroma doce, mas não desagradável, não. Era quase anestésico. Me fazia querer fitá-la por quanto tempo desse, até que o dia se fosse ou o mundo desabasse.
Quando o som parou, ela virou-se em minha direção, com feição doce, jeito doce, fala doce, mas olhos incrivelmente expressivos. Sua voz era agradável a ponto de me provocar estremecimentos.
- Sim?
Tratei de mexer-me, quebrando o aparente transe em que me encontrava.
- Toca muito bem, senhorita.
- Obrigada. - disse ela, numa curvatura tímida. Sorriu e convidou-me a sentar-me ao seu lado e ouvi-la tocar. O que fiz de bom grado.
Foi a primeira mulher pela qual me apaixonei, a pianista. Contudo, fora a mais ardente das paixões, mesmo que tivesse durado apenas umas poucas horas. Não me importava o período que eu a tinha palpitando em meu peito, mas sim a intensidade disso.
E aquela música, dela eu nunca me esqueci, nunca.
Se movia graciosamente, sem perder os selvagens olhos, que nada fitavam e que tudo notavam. Não intimidou-se com minha presença, não. Prosseguiu com dedos firmes, olhos firmes, corpo firme. Sua postura mantinha tal retitude que chegava a ser dolorosa de se ver.
Vestia um vestido elegante, mas que se escondia sob a sua própria elegância; mesmo se estivesse enfiada em trapos não perderia este encanto nos trejeitos.
Os cabelos esvoaçantes enchiam o cômodo de um aroma doce, mas não desagradável, não. Era quase anestésico. Me fazia querer fitá-la por quanto tempo desse, até que o dia se fosse ou o mundo desabasse.
Quando o som parou, ela virou-se em minha direção, com feição doce, jeito doce, fala doce, mas olhos incrivelmente expressivos. Sua voz era agradável a ponto de me provocar estremecimentos.
- Sim?
Tratei de mexer-me, quebrando o aparente transe em que me encontrava.
- Toca muito bem, senhorita.
- Obrigada. - disse ela, numa curvatura tímida. Sorriu e convidou-me a sentar-me ao seu lado e ouvi-la tocar. O que fiz de bom grado.
Foi a primeira mulher pela qual me apaixonei, a pianista. Contudo, fora a mais ardente das paixões, mesmo que tivesse durado apenas umas poucas horas. Não me importava o período que eu a tinha palpitando em meu peito, mas sim a intensidade disso.
E aquela música, dela eu nunca me esqueci, nunca.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Guarda-chuva.
As nuvens choravam o seu pesado pranto, gritavam, luziam. A garota permanecia encolhida debaixo de um guarda-chuvinha cinza que mal se destacava através da cortina de lágrimas que despencava sobre tudo.
Ela estava abatida, assim como eu. Mesmo que a chuva tentasse esconder, a tristeza emanava dela, atravessava a barreira d'água e antigia-me em cheio. E vice-versa, eu sabia.
Nos fitamos daquele jeito por muito tempo, sem movimento, sem gesto algum.
- Você está se molhando. - disse em voz alta, quebrando o silêncio antes quebrado apenas pelo ruído dos pingos se espalhando pelo chão.
Assenti um tanto quanto envergonhado. Só um completo babaca esqueceria o guarda-chuva numa tarde como aquela. Numa tarde inesquecível como aquela.
Dirigiu-se até mim e me deu espaço sob a proteção dela, que era pequena, mas era o suficiente.
Seguimos um caminho incerto sem dizer palavra. Não escutávamos a tristeza um do outro, não; escutávamos a chuva, apenas a chuva; as lágrimas do céu. E essa melancolia era de tal grandiosidade que encobria as nossas próprias e apagava-as.
E impelidos por tal infelicidade é que construímos tais silenciosos passos, sustentando um a dor do outro, mesmo que as mesmas fossem desconhecidas do alheio. Não importava.
A tristeza foi sempre isto: um caminho sem fim, sem fundo. Onde você afunda, se afoga e acaba impregnado. Os tristes são como o céu: calmos, até que venha a tempestade. Até que os olhos cedam. Até que tudo transborde.
E transbordávamos os três: eu, ela e o céu; a única testemunha.
Ela estava abatida, assim como eu. Mesmo que a chuva tentasse esconder, a tristeza emanava dela, atravessava a barreira d'água e antigia-me em cheio. E vice-versa, eu sabia.
Nos fitamos daquele jeito por muito tempo, sem movimento, sem gesto algum.
- Você está se molhando. - disse em voz alta, quebrando o silêncio antes quebrado apenas pelo ruído dos pingos se espalhando pelo chão.
Assenti um tanto quanto envergonhado. Só um completo babaca esqueceria o guarda-chuva numa tarde como aquela. Numa tarde inesquecível como aquela.
Dirigiu-se até mim e me deu espaço sob a proteção dela, que era pequena, mas era o suficiente.
Seguimos um caminho incerto sem dizer palavra. Não escutávamos a tristeza um do outro, não; escutávamos a chuva, apenas a chuva; as lágrimas do céu. E essa melancolia era de tal grandiosidade que encobria as nossas próprias e apagava-as.
E impelidos por tal infelicidade é que construímos tais silenciosos passos, sustentando um a dor do outro, mesmo que as mesmas fossem desconhecidas do alheio. Não importava.
A tristeza foi sempre isto: um caminho sem fim, sem fundo. Onde você afunda, se afoga e acaba impregnado. Os tristes são como o céu: calmos, até que venha a tempestade. Até que os olhos cedam. Até que tudo transborde.
E transbordávamos os três: eu, ela e o céu; a única testemunha.
domingo, 5 de dezembro de 2010
Fogo.
Desesperei-me ao perceber que já não podia ver os olhos dela em meio a todo aquele fogo. Não podia ver se ainda me fitavam do mesmo jeito, aquelas duas e delicadas bolinhas azuis. Apenas os seus gritos eu podia ouvir, quando os meus próprios não eram tão altos. Perguntei-me se as chamas queimavam as suas pernas ou os braços, talvez. Perguntei-me se sentia o mesmo que eu, a mesma dor intensa. Talvez até nisso fôssemos iguais.
Procurei-a sobre rastejos, estendi-me até onde a dor me deixara ir. Como estaria o rosto dela a essa altura? Talvez até nisso fôssemos iguais.
Quando encontrei-a, junto ao chão, os seus olhos ainda estavam molhados porém, sem expressão alguma. Ela virou-se para mim, num movimento agonizante e eu vi todo aquele sangue que manchava o seu rosto.
- Eu te amo. - balbuciamos ao mesmo tempo, um para o outro, salvando-nos um ao outro da dúvida.
Era só o que precisávamos ouvir, antes que o teto despencasse sobre as nossas cabeças.
Procurei-a sobre rastejos, estendi-me até onde a dor me deixara ir. Como estaria o rosto dela a essa altura? Talvez até nisso fôssemos iguais.
Quando encontrei-a, junto ao chão, os seus olhos ainda estavam molhados porém, sem expressão alguma. Ela virou-se para mim, num movimento agonizante e eu vi todo aquele sangue que manchava o seu rosto.
- Eu te amo. - balbuciamos ao mesmo tempo, um para o outro, salvando-nos um ao outro da dúvida.
Era só o que precisávamos ouvir, antes que o teto despencasse sobre as nossas cabeças.
domingo, 28 de novembro de 2010
Imóveis.
Ela estava suja, imóvel e completamente indefesa. Doía vê-la do único jeito que eu nunca teria querido ver: desprotegida.
Os olhos dela ainda conservavam as lágrimas que havia chorado tão incansavelmente. Fiquei ali parado, olhando em seus olhos petrificados por muito tempo; tempo esse que ainda que perdurasse por uma eternidade pareceria pouco.
Tive medo de não tê-la amado o bastante. Tive medo de tê-la feito sofrer. Tive medo de que tudo aquilo fosse real; e eu tinha certeza que era.
O insuportável vislumbre que amorte deixara era esse: a mulher da minha vida despedaçada. E por minha causa.
O grito até então engasgado saiu, com o nome dela. Berrei o seu nome até ter certeza de que ela já não me ouvia. Nunca mais ouviria.
Então ela ergueu a cabeça. A felicidade me atingiu em cheio ao ver que ela ainda se mexia. E mexeu-se para, mais uma vez, encontrar com os olhos o meu corpo no chão estendido sobre a enorme poça de sangue. E, pela última vez, ela deixou que as suas lágrimas caíssem sobre mim.
Os olhos dela ainda conservavam as lágrimas que havia chorado tão incansavelmente. Fiquei ali parado, olhando em seus olhos petrificados por muito tempo; tempo esse que ainda que perdurasse por uma eternidade pareceria pouco.
Tive medo de não tê-la amado o bastante. Tive medo de tê-la feito sofrer. Tive medo de que tudo aquilo fosse real; e eu tinha certeza que era.
O insuportável vislumbre que amorte deixara era esse: a mulher da minha vida despedaçada. E por minha causa.
O grito até então engasgado saiu, com o nome dela. Berrei o seu nome até ter certeza de que ela já não me ouvia. Nunca mais ouviria.
Então ela ergueu a cabeça. A felicidade me atingiu em cheio ao ver que ela ainda se mexia. E mexeu-se para, mais uma vez, encontrar com os olhos o meu corpo no chão estendido sobre a enorme poça de sangue. E, pela última vez, ela deixou que as suas lágrimas caíssem sobre mim.
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