segunda-feira, 30 de maio de 2022

Matrimônio à beira do mar.

 quero ser esquecida por você 

 sem amenizar 

 sem esconder de si lembranças no quarto

 para encontrar depois, por acaso 

 essa é uma carta de amor impossível de ler 

 o presente da possibilidade 

 de viver sem precedentes:

 quero ser esquecida. não-delineada.

 transpor as linhas do seu pensamento

 rumo à liberdade de não ser conhecida

 de proteger o imprevisto 

 de decidir pelo que vai me matar,

 eventualmente, matar o seu desejo 

 de lembrar de mim, dar-me forma, 

 performar-me 

 como se eu não fosse inalcançável.

 não quero ir esmaecendo de sua cabeça 

 quero ser esquecida agora, com urgência, 

 sem despedidas e sem saudades,

 imediatamente liberta da expectativa de ser.

 deixar sumir é um gesto lisonjeiro 

 um carinho que se faz na distância 

 sem dedos, sem pele, sem esforço, 

 telepaticamente resguardada 

 e instantaneamente eterna.

 

 

 

 


 







domingo, 6 de fevereiro de 2022

 navegar é a melhor parte 

 da tempestade 

 onde ir é uma questão 

 irresolvivel 



domingo, 23 de janeiro de 2022

domingo, 16 de janeiro de 2022

Voltejando parado.

 estou apórica 

 poucos olhos para perceber que estou à beira 

 abismos cheios d'água 

 fomes vagam, confundem-se 

 com desejos injetados em mim 

 abocanho meu próprio caminho 

 não me alimento de qualquer coisa 

 se nos portões encontro grades 

 descubro que já tinha as chaves faz tempo 

 

 amiga é aquela que avisa quando 

 você já passou muito tempo dando cabeçadas 

 e também a que não permite que a outra 

 inicie também a cabecear 

 para não deixá-la só.






terça-feira, 11 de janeiro de 2022

 paciência às vezes 

 é um excesso de cuidado

 um não-me-toque

 algo a se segurar ali no inaudito

 as dúvidas são vermelhas

 daquele frio tão frio

 que queima 

 e ali mesmo enquanto queima,

 como um adesivo,

 já adere à pele.

 imagine deitar dentro de uma cápsula deste gelo

 você curvada,

 os joelhos como apoio para o queixo

 e as canelas como os escudos pontudos do peito

 e - ainda assim - completamente desprotegida.

 imagine a sensação deste abraço.

 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Solidões acompanhadas.

 vou driblando barrancos

 dando voltas em imensidões

 contornando buracos pé ante pé 

 contando distâncias no infinito

 tudo em vão 

 e à beira do vão 

 nada tem um tamanho tão grande.

 repita:

 nada tem um tamanho tão grande 

 vazios são infinitos porque

 habitam o ar

 deslizam por baixo das coisas

 o lugar mais cheio que houver

 estará repleto também

 do nada.

 
pra abocanhar o mundo é preciso saber

atrasar o onde 

esquecer como

desfazer o que ainda não foi feito.


 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

 escrevo aqui porque não consigo escrever acordada,

 então recorro ao berço, aos choros rápidos, aos silêncios impróprios

 se eu deveria falar cada vez que o tempo fecha

 não há profecias meteorológicas que deem conta

 do desarranjo nas minhas cordas vocais

 e do nó cego nas minhas certezas.  

 sei que sou vasta 

 mas queria mesmo era ser minúscula

 microscópica

 acessível somente com equipamentos tecnológicos demais

 assim você não entraria tão fácil aqui 

 neste mundo de coisas tão pequenas e tão permanentes.

 o que fica é justamente aquilo que não dá pra ver.