segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Tentando falar menos de mim.

 o sapateado dos dedos pelas teclas 

 significa que estou mais uma vez 

 tecendo tecidos e tecidos de teorias 

 quilômetros de pano 

 em torno de besteiras.







domingo, 10 de outubro de 2021

 a sensação completamente nova inexplorada 

 de contemplar as superfícies que refletem 

 e procurá-las em seguida.





sexta-feira, 8 de outubro de 2021


tudo parece estar oco por dentro 

e tão profundo e tão delicado

não é preciso tesouro para ser precioso 

eu tenho insistido em proteger o meu vazio 

o vácuo que eu guardo despreenchido 

o nada que é parte de mim 

com os nós dos dedos eu confirmo

faz eco aqui 

respirar onde não tem ar é a maior técnica que aprendi 

e fingir não respirar é a segunda maior 














segunda-feira, 13 de setembro de 2021

sempre arestas pontudas 

para fortalecer a defesa

para facilitar o encaixe 

seja por mero espaço adjacente 

seja por rasgar as atmosferas 

as peças do quebra-cabeça 

estão todas juntas desde que a criança 

levanta a tampa da caixa de papelão.

e pra voltar a ser criança precisei 

criar espinhos 

ouça 

a fonte de carinho que eu sou não seca

mas exige algo em troca. são quatro pactos.

roubar aqui significa prender o ar 

com a parte de dentro das bochechas 

e tentar segurá-lo ali 

entre o céu, o palato 

e uma língua pronta para permanecer imóvel.







sexta-feira, 11 de junho de 2021

 ouvi passos indo embora e não fechei a porta 

 nada fiz 

 nada disse 

 estive muito pouco atenta aos caminhos que não estive 

 e todos eles me levam a crer 

 que estar é uma condição impossível: 

 ir também.

 em estado de esvair-me, sigo 

 a um relance de perder as estribeiras 

 que sempre foram gasosas 

 celas sublimam facilmente 

 e se rematerializam em outras prisões 

 construídas muito dentro da coisa 

 profundas demais para ecoar 

 sou prisão e sou fumaça 

 sou pedra e sou as migalhas 

 sólida e não mais ali 

 abro a boca e fecho túneis 

 fecho os olhos e sinto lava.












quarta-feira, 26 de maio de 2021

ontem esbarrei num sentimento 

que fez barulho de coisa oca 

revestimento demais 

uma cápsula despreenchida 

a rigidez das paredes ecoando por dentro.

tudo o que quebra armazena no vazio.

















quarta-feira, 12 de maio de 2021

quando a coisa cicatriza
queloidifica
rastro do que foi embora
ainda dolorido
faz aprender a não tocar ali
não mexer demais
tentar medicinas de desviar a atenção
para as zonas que ainda não se tornaram
calombos
carimbos
fenômenos marcados pela escavação da pele
memórias em forma de tez
como ecos, as células se multiplicam
recobrem, esculpem outras desfigurações
tudo o que se perde, torna-se
nem tudo o que evanesce é sublimação:
sentimentos avassaladores transfiguram-se
também em nada
nem tudo o que agora está, de fato, marca presença
um segundo na vida de quem passa
são séculos de quem mora
e é exatamente nesse momento
que os olhos enganam os sentidos.