segunda-feira, 26 de junho de 2023

Canção sobre um anjo

 

queria te dizer um tanto de coisas bonitas

que não digo nem para mim mesma

queria te fazer promessas que, eu sei, são vazias

mas acho que o meu tempo aqui acabou


eu disse um dia que aguentaria

carregar nas costas a pesada geografia

criar músculos e dobrar a terra

mas sempre que tento só há vapor

tudo escapa das minhas mãos...


espero que não precisemos escrever cartas

porque estou cansada de escrever

e não sei redigir nada além de poemas


queria dizer que é a nossa última dança na chuva

mas quem sabe um dia de céu azul

te encontre na rua

na Faustina ou na Boa Vista

e de repente comece a chover


domingo, 11 de junho de 2023

desaparecer

é um evento
apenas aparente

não existe algo
que simplesmente 
pare de fazer parte

como localizar aquilo
as moléculas daquilo 
desprendidas
da incapacidade dos meus olhos?

terça-feira, 6 de junho de 2023

Máquinas têm sede

céu vazio

as nuvens estão dormindo


assim como nós, quando sonhamos,

nos dissipamos por aí 

entre um mundo e outro 

estar aqui e 

desaparecer 


quando um satélite fotografa a água 

depara-se com o seu próprio reflexo?

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Saudade de casa #7

 lembro que uma vez, minha mãe,

 disse que não queria ter paz 

 que o movimento era o meu lugar,

 o Caos.

 agora que eu conheci a paz 

 me sinto estranha:

 nunca me acostumei a ter abrigo 

 e agora que tenho e que amo 

 parece que deixei um pouco de ser eu.

 da janela os desencontros me incomodam menos;

 deixar para a próxima não assusta mais;

 plantar distâncias dá bons frutos;

 envelhecer virou um desejo.

 tu me virou do avesso, mãe?

 ironia ter te pedido o Caos e agora 

 me sentir estranha quando eu tive justamente 

 o que eu pedi.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Afiadas ternuras.

 sempre que estou prestes a perder

 rebobino até o primeiro momento

 o som agudo das fitas arranhando os tímpanos

 

 o momento em que me tornei tão analítica

 estrategista

 não faz parte da minha história: 

 com licença,

 estou me protegendo de ameaças invisíveis.

 tem alguma coisa muito preciosa, frágil,

 quebradiça, irrecuperável aqui dentro

 eu só não sei o que é ainda.


 vejo tudo em porcelana

 todos os cheiros são pólvora

 sob todas as superfícies há sangue

 e sobre todas as superfícies 

 há sangue; as maiores guerras não-registradas da História

 acontecem dentro de mim.


segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Subcutânea, subterrânea.

pressa boa 

essa de querer ter te encontrado ontem 

de já ter fugido com você 

e eu só te conheci hoje 

tempos de pessoas apaixonadas são indomáveis 

decepcionantes, empolgantes

extremamente frustrantes 

causam frios na barriga 

anunciam tragédias a nível planetário 

e meu planeta agora em direção ao seu 

não por guerra, mas por atração 

descontrole orbital 

desconforto estomacal 

de borboletas alienígenas penduradas 

nos omentos das minhas entranhas; 

venenosas, injetam logo no meu sangue 

essa vontade de também sair 

dos casulos; gosto de ser arrancada 

de dentro das minhas carapaças, 

ecdise sem aviso 

indefesa só consigo me perguntar 

se você geme enquanto beija 

e qual é o gosto que eu vou deixar na sua boca. 


sabor de voo, tô de asas novas 

as fotos não fazem jus ao seu cheiro 

que eu já sei que é de alfazema 

o mais gostoso e traiçoeiro dos perfumes; 

vou chegar pousando em suas blusas de flores 

lamber o pólen dos seus lábios:

a doce ou amarga expectativa 

de contar mil beijos na sua nuca 

e me encontrar, em seguida, dormindo afundada nela 

estava entediada até chegar a primavera.