domingo, 11 de junho de 2023
desaparecer
terça-feira, 6 de junho de 2023
Máquinas têm sede
céu vazio
as nuvens estão dormindo
assim como nós, quando sonhamos,
nos dissipamos por aí
entre um mundo e outro
estar aqui e
desaparecer
quando um satélite fotografa a água
depara-se com o seu próprio reflexo?
sexta-feira, 9 de dezembro de 2022
Saudade de casa #7
lembro que uma vez, minha mãe,
disse que não queria ter paz
que o movimento era o meu lugar,
o Caos.
agora que eu conheci a paz
me sinto estranha:
nunca me acostumei a ter abrigo
e agora que tenho e que amo
parece que deixei um pouco de ser eu.
da janela os desencontros me incomodam menos;
deixar para a próxima não assusta mais;
plantar distâncias dá bons frutos;
envelhecer virou um desejo.
tu me virou do avesso, mãe?
ironia ter te pedido o Caos e agora
me sentir estranha quando eu tive justamente
o que eu pedi.
sexta-feira, 18 de novembro de 2022
Afiadas ternuras.
sempre que estou prestes a perder
rebobino até o primeiro momento
o som agudo das fitas arranhando os tímpanos
o momento em que me tornei tão analítica
estrategista
não faz parte da minha história:
com licença,
estou me protegendo de ameaças invisíveis.
tem alguma coisa muito preciosa, frágil,
quebradiça, irrecuperável aqui dentro
eu só não sei o que é ainda.
vejo tudo em porcelana
todos os cheiros são pólvora
sob todas as superfícies há sangue
e sobre todas as superfícies
há sangue; as maiores guerras não-registradas da História
acontecem dentro de mim.
segunda-feira, 17 de outubro de 2022
Subcutânea, subterrânea.
pressa boa
essa de querer ter te encontrado ontem
de já ter fugido com você
e eu só te conheci hoje
tempos de pessoas apaixonadas são indomáveis
decepcionantes, empolgantes
extremamente frustrantes
causam frios na barriga
anunciam tragédias a nível planetário
e meu planeta agora em direção ao seu
não por guerra, mas por atração
descontrole orbital
desconforto estomacal
de borboletas alienígenas penduradas
nos omentos das minhas entranhas;
venenosas, injetam logo no meu sangue
essa vontade de também sair
dos casulos; gosto de ser arrancada
de dentro das minhas carapaças,
ecdise sem aviso
indefesa só consigo me perguntar
se você geme enquanto beija
e qual é o gosto que eu vou deixar na sua boca.
sabor de voo, tô de asas novas
as fotos não fazem jus ao seu cheiro
que eu já sei que é de alfazema
o mais gostoso e traiçoeiro dos perfumes;
vou chegar pousando em suas blusas de flores
lamber o pólen dos seus lábios:
a doce ou amarga expectativa
de contar mil beijos na sua nuca
e me encontrar, em seguida, dormindo afundada nela
estava entediada até chegar a primavera.
segunda-feira, 30 de maio de 2022
Matrimônio à beira do mar.
quero ser esquecida por você
sem amenizar
sem esconder de si lembranças no quarto
para encontrar depois, por acaso
essa é uma carta de amor impossível de ler
o presente da possibilidade
de viver sem precedentes:
quero ser esquecida. não-delineada.
transpor as linhas do seu pensamento
rumo à liberdade de não ser conhecida
de proteger o imprevisto
de decidir pelo que vai me matar,
eventualmente, matar o seu desejo
de lembrar de mim, dar-me forma,
performar-me
como se eu não fosse inalcançável.
não quero ir esmaecendo de sua cabeça
quero ser esquecida agora, com urgência,
sem despedidas e sem saudades,
imediatamente liberta da expectativa de ser.
deixar sumir é um gesto lisonjeiro
um carinho que se faz na distância
sem dedos, sem pele, sem esforço,
telepaticamente resguardada
e instantaneamente eterna.