quarta-feira, 3 de junho de 2026

hoje só consegui chorar

queria não pensar que perdi um dia

que sou fraca demais pra tudo

e se eu precisar mudar tudo eu

continuarei aqui, chorando


e quando tudo isso passar eu 

vou fingir que sou feliz de novo

até todas as fontes secarem juntas, 

somente algumas semanas depois,

e eu me ver aqui de novo,

no mesmo lugar que prometi que 

era a última vez


sexta-feira, 24 de abril de 2026

G.

 a gente sempre se vê em flashes

tudo numa velocidade calma 

num amor pronunciado a sussurros

vi o medo nos seus olhos:

estar aqui comigo talvez seja se perder 

dei vertigem em você,

te vi desejar a queda livre

e hesitar sobre o precipício 


mas já conheço demais os seus olhos

para reconhecer o seu desejo

sei que um dia cogitou, sem tentar,

largar tudo, voar por aí,

sem pesos nos pés e na cabeça


acho tão lindo te ver sonhando

afinal só nos apaixonamos graças à fantasia

à bobagem de ousar passar um pouquinho do ponto

em silêncio, agradeço 

você um dia ter sonhado comigo 


daqui espero poder te ver vestido das suas asas

quando eventualmente tudo isso passar

eu não vou voar com você porque talvez 

eu também seja peso para os seus pés;

amarras para os seus pensamentos; e tudo bem,

eu só queria mesmo te ver de novo

devanear por mais alguns velozes segundos

porque mesmo estando em segundo,

sei que no fundo te dei algo que era muito especial para mim

e vi o brilho no seu olhar


é estranho estar grata por este segundo plano

mas encontrei tanta coisa boa 

nesses espasmos de encontros;

tanta risadagem, companheirismo sutil,

da escala do não-dito, mas inegavelmente sentido


agradeço tanto ter visto de perto seu sorriso

mesmo que com pressa, precisando estar em outro lugar,

mas querendo estar aqui

isso vale mais que tudo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025


agora que voar é saída
me demorar é impossível 
asas alugadas equivalem a pouco tempo
meus horários, vontades, desejos
passam na velocidade do som

ainda lembro sua voz 
e uma parte de mim ri de si mesma
a outra se retrai, a mesma que tem saudade
é incrível a facilidade de ficar viciada
nas reações químicas causadas
pelo beijo de alguém que te faz mal

não tenho tempo sobrando,
mas pra você eu abri outras dimensões 
efêmeras, ocultas, mas onde era possível 
fugir com você 

e agora que eu sei que nem era bom
agora que cai o véu da fantasia
me encontro esperando mais um voo decolar
sentindo a abstinência comer os meus neurônios 
e procurando no celular alguém que pudesse suprir
isso que você supriu em algum momento
mas que foi causado por outra pessoa

ganho os céus outra vez
para longe de você 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025


 há algumas crianças brincando de ciranda

dentro da minha cabeça

e é incrível o quão cruel pode ser uma criança

já que não tem nada a perder

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

 
ando arredia

como se estar entre gente que não me conhece

e consequentemente não pode me querer bem

fosse uma saída prum ócio milenar


ainda não existiu um lugar sequer

em que não me senti sozinha ou

ao menos

prestes a me ver ausente,

tudo escorrendo para longe de mim


tem sido mais fácil amar de longe

mas escolher é cada vez mais difícil

quando a única coisa que consigo sentir 

é uma imensa apatia


viciada na sensação efêmera

de ser recém-chegada:

até que as estruturas do lugar

e as minhas próprias

se tornam tediosamente triviais

então retorno ao início de tudo


sigo em silêncio pleno

sem pedir socorro, afinal,

foram todas escolhas minhas,

expectativas que eventualmente frustraram-se

e meio à mercê, meio com tudo planejado

eu minuciosamente

vou me perdendo de mim mesma

e tudo o que eu achava que tinha antes

fica cada vez mais difícil de ter de novo - 

tudo bem

acho que eu nunca quis nada além disso




quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Chão de espelhos

  

faço ninhos em meu próprio cabelo

para que eu mesma tenha um lugar para retornar

no ponto mais alto de mim


quando as coisas caem no chão 

é como se a gravidade e a realidade

fossem a mesma boca dando um recado:

ainda vivo longe demais das nuvens…


onde morar então?

terça-feira, 10 de setembro de 2024

 

pedaços vazios 

saber que era pra cá que eu voltaria

sempre me empolgou como uma forma de 

finalmente

estar de volta 

o ar não é mais rarefeito

a visão não anda mais turva,

pelo contrário,

adquiriu uma profundidade que nunca conheci antes


há um jeito de cicatrizar uma coisa 

e a pele que ali cresce, depois de doer e coçar,

consegue ser mais forte do que a que estava ali antes;

talvez não pela aparência manchada,

mas por ter sido feita daquilo que era mais improvável:

sua própria morte

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

 

para esquecer é preciso de coragem

também

porque o retrato de mim que ela leva consigo

rapidamente não será mais eu; e respectivamente

lembrarei de alguém que não mais existe

me perguntarei se ainda amo alguém

que já foi levada pelo tempo


essa é a armadilha que armei para mim mesma

quando resolvi ficar a mais

sendo um alvo invisível


está tudo bem comigo;

exceto pela vontade imensa

de nunca ter largado tudo

como seria? onde eu estaria agora?

talvez aqui, no mesmo lugar

escrevendo fagulhas que um dia foram raiva;

e hoje não são nada

além de frustração, que, por sua vez,

às vezes se disfarça de sentimento nenhum

então é realmente como se eu não fosse capaz

de sentir.

quarta-feira, 31 de julho de 2024


todo um trajeto marcado por rastros de águas

que já evaporaram


quando choro é como se

eu voltasse fisicamente para o momento da memória

e então consigo dizer que pouca coisa mudou

desde a última vez que escrevi


aqui dentro sou a mesma criança

dura na queda, difícil de morrer

impossível de se convencer


a culpa por sentir tanto e saber

que nem todo ouvido está pronto

que nem todo abraço será acalanto

me condena a uma solidão silenciosa

embalada pelo gotejamento dos pingos

de lembrança líquida


eu lembro demais, de tudo

e o que eu me esforço para esquecer

parece ficar ainda mais aceso

porque essa dança não se pode dançar consciente


costurar seus próprios pedaços

depois ser frágil entre quatro paredes

pelo medo de ser vista mancando, ainda imperfeita

vale a pena?


foi muita água antes que eu me abrisse pra você

mesmo que agora pareça que eu não lembro mais;

mas o corpo lembra


espero os rios reassumirem seus cursos

recobrarem suas correntezas

enquanto navego essas histórias 

num redemoinho



segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

 

de todas as vezes que escrevi sobre você

essa é a que menos alivia

porque sei que agora te fazer carinho

só causaria mais dor


hoje que você ama outra pessoa

com disposição para amar sem limites

sem medos

sem chance de acabar sozinha sem saber


eu sei o que aconteceu,

mas não sei o que acontecerá agora


todas as vezes que ouvir My Mind

vou automaticamente sentir o mesmo frio na barriga

que antes era bom e agora é tão incômodo

ouvir Hugh Mundell cantar

que pensa na menina que o deixou e foi embora

olhar para nós e não saber

quem deixou quem

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

De novo sol

 

se nos próximos dias

sentir saudade do seu cheiro

juro que vou

fazer de tudo pra distrair a vontade

não tem amor que pague a calma

e eu nunca vivi nenhum carinho que fosse brando

sempre um cheiro de fumaça…


se te deixei incensar todos os cantos do meu quarto

foi porque não tive escolha a não ser sonhar 

e outra vez o sonho me diz que eu não moro nesse tempo

tudo acaba assim 

em água 


lembro de ter certeza que te amaria pra sempre

enquanto atravessávamos  de barco

e você me ensinou o que era uma península


desculpa não poder ficar,

sigo repetindo isso

pra você e pra mim

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

não se manipula faíscas

 

saltam tão rápido

que escapam ao toque

viram pequeninos borrões

somem pra algum outro lugar


acredito, sim

que o incêndio de agora

pode ter sido causado por um fogo

que apagou ontem


se nuvens possuídas por cargas elétricas

realmente existem

é porque entre o céu e a terra

o fogo caminha invisível


sábado, 28 de outubro de 2023

 

nascer num ninho de fogo tem seus fardos

deixar marcas é uma sina que carrego comigo

feita de pele, me queimo em meus próprios incêndios

e até que eu perceba que agora o solo ficará finalmente fértil

preciso cuidar das carnes vivas

e do medo de voltar a manipular faíscas

em algum momento parece 

que tudo que se inicia é o prenúncio de um desastre natural

(e não é acidental)

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

 

rezei para as nuvens

e não sei se pedi para que te levassem embora

ou que te trouxessem de volta

porque na verdade você nunca esteve aqui

sempre mudando e atravessando a terra como a névoa

não dá pra segurar um rio com as mãos

mas dá para sentir o sabor das águas desmanchar na boca;

tenho agora em mim o cheiro dos seus líquidos

a lembrança quase sumida dos seus carinhos

e o cheiro do meu sangue que ficou na sua pele

como uma marca entalhada 

que agora você exibe como ferida e brasão

simultaneamente

sua dor e sua conquista


eu que pensava que não era das águas

agora me afogo em lágrimas que eu não sei se são minhas ou suas

por não ter mais pra onde voltar

então volto a ir embora

eu sempre estou indo embora

porque não tem lugar para mim em casa alguma

sigo me mudando para residências que não são minhas

e abandonando um pedaço meu em cada uma delas;

um presente e algo jogado fora

ao mesmo tempo



sexta-feira, 20 de outubro de 2023

 

gelo, água, granizo

o sistema nervoso de uma nuvem

se anchimallens choram quando atingem o solo

talvez desejem voltar 

ao princípio


nem todas as coisas começam lá em cima

mas raios globulares e redemoinhos no mar

dizem que o fogo fátuo tem um lugar para retornar

terra ou céu aqui viram uma coisa só


raios não são uma guerra proclamada pelas nuvens

fônons em seu ciclo vital; queimam-nos

como um convite à dança da vida


relâmpagos não são fogos de artifício

tanto quanto não existe uma bomba sequer

lançada ao acaso


trovões não são só ar expandido

se os cães correm quando ouvem o seu estrondo

é porque talvez saibam a direção


satélites não estão a salvo da eletricidade

nem flutuam no vácuo

mas esta é uma conversa que só pode acontecer

embaixo da terra


a violência das descargas celestes

nada têm a ver com o desejo humano pela guerra

até porque não haveria Homo Sapiens

se o planeta não tivesse sido uma vez resfriado

pela sombra das nuvens


para parar de falar das supernovas como objetos,

é preciso primeiro sentir o que uma estrela sente


para começar a falar da Terra como fenômeno,

é preciso primeiro ouvir os grãos de poeira subindo aos céus

e virando chuva.



domingo, 1 de outubro de 2023

Dia primeiro

 

é tão estranho ainda querer seu colo

sonhar com ele

como se eu não tivesse sido expulsa dos seus braços


parece burrice querer tudo de novo

e eu tenho guardado pra mim a vontade imensa

de só te trazer de novo pra cá pra dentro

onde eu ainda não consegui tirar quase nada do lugar

só me mudei pra uma residência vazia

e apesar de ser empolgante poder planejar tudo do zero

eu queria mesmo era que você escolhesse os móveis comigo


o seu cheiro me acalmava tanto

me fazia dormir tranquila

e não que agora eu não durma imediatamente

assim que deito

depois de pensar um pouco em você


é cruel demais ter que desistir de tudo

mas ainda é mais cruel

ter que fingir que eu não quero mais

quando tudo o que eu mais queria agora

era poder te querer em paz.



segunda-feira, 18 de setembro de 2023

 

hoje o skyscanner me lembrou

que eu tava prestes a fazer mais uma loucura por você

era pra estar aliviada e uma parte de mim está

mas outra queria ainda poder considerar

viajar os céus, fugir de tudo, só pra estar junto

queria poder ainda acreditar nisso.

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Uma conversa que nunca teremos

 

se eu pudesse voltar no tempo

não te diria os meus segredos

não te guiaria exatamente pra dentro das minhas feridas

teria me protegido e também nos protegido

das tragédias anunciadas que fantasiei desde o começo


eu não sei amar

tanto quanto não sei fingir

sonhei coisas impensáveis com você

que agora nunca vão se realizar 

porque eu preciso ir

em direção a algo que seja meu

e o amor não é.


agora aqui, deitada na cama, seu cheiro em tudo

queria a certeza de que assim como eu

você não vai me esquecer.

mas caso aconteça, eu te entendo,

já que eu mesma quero tanto e nunca consegui…


quero pôr reticências entre nós agora

porque no fundo ainda torço pra que você consiga

pular as linhas que nos separam

esforço que você faz muito bem 

mas que agora não sei se ainda quer fazer por mim.

domingo, 13 de agosto de 2023

Distante


aliviada

no meu quarto que é meio depósito 

as coisas vão ficando ali

se acumulam, jogo todas fora


sentada aqui eu só consigo pensar 

que eu já sabia o que ia acontecer

comigo e com todos os objetos 

que compramos para construir uma casa

onde pudéssemos, finalmente,

encontrar um refúgio.


minha companheira de fugas,

o que fazer agora que eu não quero mais fugir?

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Manchada

 

toda dormência sucede uma ferida?

sinto o vazio no lugar que antes estava você 

e um ainda maior onde era pra eu estar 

estou ausente de mim. por enquanto.

é difícil pensar que quanto mais me aproximo de mim

acabou te afastando mais

como se só tivesse espaço pra você se eu não estiver aqui


e se eu começar a fazer tudo só por mim?

e se eu não esquecesse, hoje, 

que eu também preciso de atenção?

tenho feito por você o que queria que fizessem por mim

e por que eu mesma não faço?


quero casar comigo mesma

pôr aneis nos meus dedos

vestir-me bem para que eu mesma veja

e elogiar-me sem precisar de confirmação