terça-feira, 8 de maio de 2012

Complexo.



Já perdi a vontade
Mas ó
Não dá nó
Na minha vaidade
Senão eu perco a rima
Tem dó
Clemência!
Pois o mero fato de tua existência
É uma afronta à minha autoestima.



quinta-feira, 22 de março de 2012

E eu nem sabia que era circense.




Acho que vivo num circo:
Fico em pé na fina corda
Mas morro de medo de cair
Porque aí seria palhaço
E não consigo te fazer rir
Minha mágica não te aborda
E barba não tenho, não
Malabarismo não faço
Não com o teu coração
E se não governo este picadeiro
Se não te domo e me abandona
O espetáculo é derradeiro
E coberto por uma lona.



sábado, 4 de fevereiro de 2012

Breve retardo.




Não sei mais escrever, não!
Paro sobre a caneta
e eta! Para onde foi a inspiração?
Penso se saiu porta afora
Louca, desvairada, sem espora
Ou talvez tenha se libertado
Da mente sem rimas de um retardado.




sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Parapeitos.

Parou ali, junto à sombra da cidade. Implorara aos céus por tanto tempo que fosse salvo daquela torrente de cabeças iguais toda composta de rostos iguais e que seguia incansavelmente no mesmo sentido para, no fim, alcançar o mesmo nada. Estava ali para salvar-se.

Parou ali, à sombra da cidade. E a sua própria sombra misturava-se aos traseuntes que, numa corrida contra o tempo, mantinham-se de cabeça erguida e olhos sempre à frente.

Parou ali, projetando a sua sombra sobre a cidade. Sobre uma faixa de pedestres que, ao contrário do senso comum, por si só, nunca salvou vida alguma. Ao contrário dos parapeitos, ah!, estes sim salvam vidas!

Parou ali, delineando a sua silhueta no horizonte da cidade. Os rápidos passos arrastavam-se numa cachoeira que desembocava horizontalmente para leste, para norte, para todos os lados. E, como uma cachoeira, não havia razão para desembocar; mas desembocava com todas as forças que possuía, apesar do caminho estreito.

Parou ali, acima das cabeças da cidade. Porque eram como gado, como cães adestrados, correndo atrás do senso comum: Pastando, correndo e fingindo de mortos; Matando, morrendo e fingindo de mortos.

Parou ali, à sombra da cidade. Sobre o parapeito. Sob o céu cinza. Então, sob o parapeito. Sobre a calçada. Escorrendo no asfalto, pelas vísceras da cidade.

E, de repente, era ele a maior prova de que parapeitos salvam vidas.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Destinatário.

"Caro Neil,
Venho pedir-lhe novamente que abandone a minha vida. Peço-lhe sem balbúrdia e educadamente já que, ambos sabemos, não há mais possibilidade de habitarmos o mesmo lugar. Não podes mais ignorar a minha existência!
Estou farto de suas badernas e bebedeiras que só me fazem mal, de seu cheiro de nicotina e de álcool; de limpar os teus lençóis sujos nas manhãs e de pagar as cortesãs que trazes para casa. Não posso mais aguentar! E, como foges de mim, não havia outro jeito de comunicar-lhe as minhas insatisfações.
E que parta daqui com as tuas roupas fétidas, com o teu cheiro, tuas garrafas, tuas cortesãs, tua arrogância, tua voz, tua presença... Some! Deixa-me em paz, imploro!
E se negas deixar o meu lar, que deixe de covardia e que conversemos de homem para homem.
Na saída, seja cavalheiro: Deixe tudo do modo como encontrou.

Cordialmente,
Sebastian."

Neil amassou o papel e sorriu, desdenhoso. Bocejou e espreguiçou-se, tentando não se importar com a dor de cabeça lancinante que parecia querer explodir o seu crânio de dentro para fora. O que aquele homem queria novamente?

O errante Neil, entregue à bebida e às mulheres, dono de um ar preguiçoso, postura errônea, olhar sonolento, passos lerdos e um senso de nada.

O elegante Sebastian, dono dos bonitos trejeitos, fala bonita, roupas bem alinhadas e a irritante mania de arrumação.

Não tinham nada em comum. Nem a postura, nem a fala, nem os trajes, nem a personalidade. Não, não tinham nada em comum. A não ser pelo fato de habitarem o mesmo corpo, eram completamente diferentes.

E ainda naquela noite, tiveram uma séria conversa. Em frente ao espelho.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Estrofe e estupidez.



Pois, a vida é muito curta
Para se perder cobrindo pegadas
Fique atento, não se iluda
Olhos de vidro furam as pálpebras.


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Em Sônia.

Ah, Sônia
Já não posso domir
Com tanto espaço nesta cama
Volta, diz que me ama

Ó, Sônia
Onde está você?
Vem curar as minhas olheiras
E os meus choros de noites inteiras

Ou, Sônia,
Sai da minha cabeça
Da minha cabeceira
Antes que a pálpebra apodreça

E se não é tua a canção de ninar
Prefiro estar acordado
Pois, de nada adianta descansar
Se não te tenho ao meu lado

Pois, Sônia
Se contigo não posso estar
Com quem haverei de sonhar?