domingo, 15 de abril de 2018

Escrita Automática VII

os dias afiados passam
cortando a carne

não tenho mais tempo pra nada
pra mim ou pra quem eu amo
se é que amo mesmo
não deu tempo de pensar direito
se acabei no lugar certo
ou se era só o único jeito
de ganhar sem perder nada

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Escrita Automática VI - Pedra.

gosto pouco da ausência
prefiro pequenas brechas
tempo
pra
respirar

te vejo de longe
tragando os ares
alargando as brechas
como se eu fosse uma jaula

eu não quero ser jaula
de ninguém além de mim

todos os meus lados bons
estão arquivados em tempos passados
parece
agora só tenho defeitos
maus jeitos
sempre a mais
amando a mais
esperando a mais
sentindo a mais
sempre sou coisa demais
apesar de me sentir bem menos
pequeno
uma caixinha de fósforo
ainda asfixiante o bastante

sou uma jaula de grades abertas
entra na minha prisão quem quiser
e quase sempre ao notar
o espaço de dentro da coisa bonita
você desespera, corre, grita
quando as grades continuam espaçosas
pra você ter ido embora antes
a qualquer momento
nunca precisei de aviso
comigo
eu mesmo resolvo
curo
finjo de morto
mas resolvo
mesmo sendo cárcere
me pego às vezes na vontade
de, igual a você, assim
voar pra longe de mim

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Pastilha de naftalina.

desde criança
aprendi que se deve 
vestir as roupas de acordo
com a vontade dos outros
de te esconder

não rebole
não beije
use os artigos no masculino
assim cortado fica lindo
mas ainda não vai dar em nada
essa história de querer ser
amada

você diz que parece
que eu ando sempre armada
mas eu nunca quis empunhar nada
antes de ser obrigada 
a atirar primeiro
porque o meu corpo é que é chacota
feito pra divertir o mundo inteiro
nas casas eu nunca passo da porta
e o ninho de amor é sempre
o banheiro

ame dentro deste espaço
não faça barulho
e agradeça que,
no escuro,
sem riscos de flagra
vou ser o melhor cara
que já te fodeu



quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Escrita automática V - Eme Xis.

tenho amado sem perceber
o tamanho do peso ou da leveza
coisas que sempre estiveram aqui
obrigatórias
dentro de mim
eu nunca me permiti sentir por sentir
sempre acelerava o abraço até a partida
sem nem saber se ia mesmo partir
acabou que fiquei no mesmo lugar
preso no medo de amar
acumulei-me detrás de muros
que você pula com uma imensa facilidade
e mesmo assim tenho sido 
indiscutivelmente eu
e isso não tem sido
problema nenhum 

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Um pouco de medo.

há um carinho implícito
e assustador
no jeito que a gente se olha
por cima da mesa
aparentemente sem razão alguma

sábado, 6 de janeiro de 2018

Moeda.

chupam maços de dinheiro
como hóstias, sobre a língua
engolem o caldo
gosto de sangue, ferrugem
das juntas desgastadas
de dedos que contam sem fim
e são levados à ponta da língua
de vez em quando
para lubrificar as cédulas
separando uma da outra
com a ponta molhada do indicador
o gemido barulhento do papel
é a coisa mais próxima
da reciprocidade sexual