Toc, toc, toc.
Lourenço. 26 anos, alma de 60. Bíblia embaixo do braço. Terno de 300 reais. Apaixonado por Jesus Cristo. Existência dispensável.
- Tem algum tempo para a palavra do Senhor, meu jovem?
Tales. 19 anos, pulmões de 60. Garrafa de vodka sob o braço. Camisa do Pink Floyd de 10 reais. Apaixonado por nicotina e quem quer que estivesse em sua cama. Existência dispensável.
- Não. - respondeu, levando algo à boca.
Cigarro. Comprado havia 2 horas. Marlboro. 50 centavos. Existência indispensável para Tales.
- Vamos, filho, deixe Cristo salvar a sua alma.
Jesus Cristo. Filho de Deus. Idade desconhecida. Existência incomprovada, porém indispensável para Lourenço.
- Que porra de alma, cara?!
- A sua, irmão. Em Isaías, Jesus diz que...
- Cai fora.
- Aceita Cristo, irmão.
- Não sou o seu irmão. E cai fora.
- O Senhor tem um plano pra ti.
Risada. Causada por deboche.
- Você não quer ser salvo?
- Se ser salvo significa ser alguém como você, então não.
- Na Bíblia...
- Cara, você deve ser um infeliz. De porta em porta, tentando salvar os outros de suas próprias vidas, prometendo a felicidade. Então você é feliz assim, hã? Você é só um desgraçado com uma vida fodida tentando arrastar todo mundo para o meio da merda. E você ainda se considera salvo?!
- Há muito mais no Céu que...
- Tem baseado no Céu?
- Não.
- Então que se foda.
Porta. Aberta por curiosidade. Fechada por fúria.
Lourenço tinha 26 anos e alma de 60. Levava uma bíblia embaixo do braço, entoava um cântico, estava cabisbaixo. Virou a esquina, comprou um maço de cigarros. A partir daquele momento, não estava mais salvo. Apaixonado por Jesus Cristo.
Existência dispensável.
sábado, 2 de junho de 2012
terça-feira, 8 de maio de 2012
Complexo.
Já perdi a vontade
Mas ó
Não dá nó
Na minha vaidade
Senão eu perco a rima
Tem dó
Clemência!
Pois o mero fato de tua existência
É uma afronta à minha autoestima.
quinta-feira, 22 de março de 2012
E eu nem sabia que era circense.
Acho que vivo num circo:
Fico em pé na fina corda
Mas morro de medo de cair
Porque aí seria palhaço
E não consigo te fazer rir
Minha mágica não te aborda
E barba não tenho, não
Malabarismo não faço
Não com o teu coração
E se não governo este picadeiro
Se não te domo e me abandona
O espetáculo é derradeiro
E coberto por uma lona.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Breve retardo.
Não sei mais escrever, não!
Paro sobre a caneta
e eta! Para onde foi a inspiração?
Penso se saiu porta afora
Louca, desvairada, sem espora
Ou talvez tenha se libertado
Da mente sem rimas de um retardado.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Parapeitos.
Parou ali, junto à sombra da cidade. Implorara aos céus por tanto tempo que fosse salvo daquela torrente de cabeças iguais toda composta de rostos iguais e que seguia incansavelmente no mesmo sentido para, no fim, alcançar o mesmo nada. Estava ali para salvar-se.
Parou ali, à sombra da cidade. E a sua própria sombra misturava-se aos traseuntes que, numa corrida contra o tempo, mantinham-se de cabeça erguida e olhos sempre à frente.
Parou ali, projetando a sua sombra sobre a cidade. Sobre uma faixa de pedestres que, ao contrário do senso comum, por si só, nunca salvou vida alguma. Ao contrário dos parapeitos, ah!, estes sim salvam vidas!
Parou ali, delineando a sua silhueta no horizonte da cidade. Os rápidos passos arrastavam-se numa cachoeira que desembocava horizontalmente para leste, para norte, para todos os lados. E, como uma cachoeira, não havia razão para desembocar; mas desembocava com todas as forças que possuía, apesar do caminho estreito.
Parou ali, acima das cabeças da cidade. Porque eram como gado, como cães adestrados, correndo atrás do senso comum: Pastando, correndo e fingindo de mortos; Matando, morrendo e fingindo de mortos.
Parou ali, à sombra da cidade. Sobre o parapeito. Sob o céu cinza. Então, sob o parapeito. Sobre a calçada. Escorrendo no asfalto, pelas vísceras da cidade.
E, de repente, era ele a maior prova de que parapeitos salvam vidas.
Parou ali, à sombra da cidade. E a sua própria sombra misturava-se aos traseuntes que, numa corrida contra o tempo, mantinham-se de cabeça erguida e olhos sempre à frente.
Parou ali, projetando a sua sombra sobre a cidade. Sobre uma faixa de pedestres que, ao contrário do senso comum, por si só, nunca salvou vida alguma. Ao contrário dos parapeitos, ah!, estes sim salvam vidas!
Parou ali, delineando a sua silhueta no horizonte da cidade. Os rápidos passos arrastavam-se numa cachoeira que desembocava horizontalmente para leste, para norte, para todos os lados. E, como uma cachoeira, não havia razão para desembocar; mas desembocava com todas as forças que possuía, apesar do caminho estreito.
Parou ali, acima das cabeças da cidade. Porque eram como gado, como cães adestrados, correndo atrás do senso comum: Pastando, correndo e fingindo de mortos; Matando, morrendo e fingindo de mortos.
Parou ali, à sombra da cidade. Sobre o parapeito. Sob o céu cinza. Então, sob o parapeito. Sobre a calçada. Escorrendo no asfalto, pelas vísceras da cidade.
E, de repente, era ele a maior prova de que parapeitos salvam vidas.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Destinatário.
"Caro Neil,
Venho pedir-lhe novamente que abandone a minha vida. Peço-lhe sem balbúrdia e educadamente já que, ambos sabemos, não há mais possibilidade de habitarmos o mesmo lugar. Não podes mais ignorar a minha existência!
Estou farto de suas badernas e bebedeiras que só me fazem mal, de seu cheiro de nicotina e de álcool; de limpar os teus lençóis sujos nas manhãs e de pagar as cortesãs que trazes para casa. Não posso mais aguentar! E, como foges de mim, não havia outro jeito de comunicar-lhe as minhas insatisfações.
E que parta daqui com as tuas roupas fétidas, com o teu cheiro, tuas garrafas, tuas cortesãs, tua arrogância, tua voz, tua presença... Some! Deixa-me em paz, imploro!
E se negas deixar o meu lar, que deixe de covardia e que conversemos de homem para homem.
Na saída, seja cavalheiro: Deixe tudo do modo como encontrou.
Cordialmente,
Sebastian."
Venho pedir-lhe novamente que abandone a minha vida. Peço-lhe sem balbúrdia e educadamente já que, ambos sabemos, não há mais possibilidade de habitarmos o mesmo lugar. Não podes mais ignorar a minha existência!
Estou farto de suas badernas e bebedeiras que só me fazem mal, de seu cheiro de nicotina e de álcool; de limpar os teus lençóis sujos nas manhãs e de pagar as cortesãs que trazes para casa. Não posso mais aguentar! E, como foges de mim, não havia outro jeito de comunicar-lhe as minhas insatisfações.
E que parta daqui com as tuas roupas fétidas, com o teu cheiro, tuas garrafas, tuas cortesãs, tua arrogância, tua voz, tua presença... Some! Deixa-me em paz, imploro!
E se negas deixar o meu lar, que deixe de covardia e que conversemos de homem para homem.
Na saída, seja cavalheiro: Deixe tudo do modo como encontrou.
Cordialmente,
Sebastian."
Neil amassou o papel e sorriu, desdenhoso. Bocejou e espreguiçou-se, tentando não se importar com a dor de cabeça lancinante que parecia querer explodir o seu crânio de dentro para fora. O que aquele homem queria novamente?
O errante Neil, entregue à bebida e às mulheres, dono de um ar preguiçoso, postura errônea, olhar sonolento, passos lerdos e um senso de nada.
O elegante Sebastian, dono dos bonitos trejeitos, fala bonita, roupas bem alinhadas e a irritante mania de arrumação.
Não tinham nada em comum. Nem a postura, nem a fala, nem os trajes, nem a personalidade. Não, não tinham nada em comum. A não ser pelo fato de habitarem o mesmo corpo, eram completamente diferentes.
E ainda naquela noite, tiveram uma séria conversa. Em frente ao espelho.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Estrofe e estupidez.
Pois, a vida é muito curta
Para se perder cobrindo pegadas
Fique atento, não se iluda
Olhos de vidro furam as pálpebras.
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