E aí, pessoal, como estão? Se ainda existe alguém, espero que esteja bem.
Eu sei que faz um bom tempo que eu não mostro as caras por aqui, mas é que a minha inspiração resolveu tirar férias. Porém. breve eu volto a postar, então espero que os dois ou três leitores que sobraram permaneçam aí.
Então, hoje eu estou passando aqui porque o último texto postado aqui virou uma HQ! O meu amigo Fernando Caldas fez esse favor pra gente e ficou muito legal. Vocês podem conferir lá no blog dele, o Resolvi Blogar.
Da próxima eu passo aqui trazendo algum material inédito, beleza?
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Aflição.
- Pronto.
- A cabeça é pro outro lado, dona.
- Ah, desculpa. Agora sim.
- O que te aflige, enfim?
- É isso? Eu deito aqui nesse negócio e você só me pergunta o que me aflige? Vamos, seja criativa.
- Divã.
- Hã?
- O nome desse negócio que a senhora está deitada. Divã.
- Ah, claro, tanto faz.
- Preciso saber o que te aflige primeiramente.
- Ah, muita coisa me aflige. Ficar meia hora numa sala de espera me aflige, se quer saber. E eu gostaria de ser tratada melhor da próxima vez, se me permite dizer. Andar de elevador também me dá nos nervos. E perguntas. Perguntas definitivamente me irritam. Cachorros, crianças, sol forte, vendedores insistentes, trânsito, relacionamentos. Odeio quando falam alto. E também odeio quando eu me descontrolo e falo alto, perco a cabeça. Daí falo ainda mais alto. E quando me respondem em voz baixa, então, eu morro por dentro. Sabe que agora me pararam no meio da rua para perguntar as horas? Eu estava tão apressada, aquilo me irritou tanto...
- Eu acho...
- Não comece com "eu acho", soa como uma opinião intrometida. E eu odeio opiniões intrometidas.
- Tudo bem, senhora. Talvez você se importe demais com as coisas ao seu redor.
- Não acho.
- Compreendo. Por que a senhora não tenta se acalmar, respirar fundo, pensar duas vezes?
- Mas pensar uma vez só não basta?
- Às vezes não, sabe? Às vezes é preciso...
- Mas que negócio mais desconfortável esse... Como se chama mesmo?
- Divã.
- Isso, divã. Não respire fundo desse jeito quando eu fizer uma pergunta.
- Certamente, senhora. Talvez...
- E não me chame de senhora tão repetidamente. É irritante.
- Paciência.
- Como?
- Paciência. É o que a senhora precisa. Desculpa. Você. Você precisa.
- Me acho extremamente paciente.
- Receio que não seja bem assim.
- Ainda parece uma opinião intrometida.
- Que tal tentarmos chegar a algum lugar, hã?
- Hunf. Eu só queria ser feliz, sabe?
- Parece que estamos chegando lá. Que tal recomeçarmos?
- Ser feliz me irrita.
sábado, 2 de junho de 2012
Guerras dialogadas.
Toc, toc, toc.
Lourenço. 26 anos, alma de 60. Bíblia embaixo do braço. Terno de 300 reais. Apaixonado por Jesus Cristo. Existência dispensável.
- Tem algum tempo para a palavra do Senhor, meu jovem?
Tales. 19 anos, pulmões de 60. Garrafa de vodka sob o braço. Camisa do Pink Floyd de 10 reais. Apaixonado por nicotina e quem quer que estivesse em sua cama. Existência dispensável.
- Não. - respondeu, levando algo à boca.
Cigarro. Comprado havia 2 horas. Marlboro. 50 centavos. Existência indispensável para Tales.
- Vamos, filho, deixe Cristo salvar a sua alma.
Jesus Cristo. Filho de Deus. Idade desconhecida. Existência incomprovada, porém indispensável para Lourenço.
- Que porra de alma, cara?!
- A sua, irmão. Em Isaías, Jesus diz que...
- Cai fora.
- Aceita Cristo, irmão.
- Não sou o seu irmão. E cai fora.
- O Senhor tem um plano pra ti.
Risada. Causada por deboche.
- Você não quer ser salvo?
- Se ser salvo significa ser alguém como você, então não.
- Na Bíblia...
- Cara, você deve ser um infeliz. De porta em porta, tentando salvar os outros de suas próprias vidas, prometendo a felicidade. Então você é feliz assim, hã? Você é só um desgraçado com uma vida fodida tentando arrastar todo mundo para o meio da merda. E você ainda se considera salvo?!
- Há muito mais no Céu que...
- Tem baseado no Céu?
- Não.
- Então que se foda.
Porta. Aberta por curiosidade. Fechada por fúria.
Lourenço tinha 26 anos e alma de 60. Levava uma bíblia embaixo do braço, entoava um cântico, estava cabisbaixo. Virou a esquina, comprou um maço de cigarros. A partir daquele momento, não estava mais salvo. Apaixonado por Jesus Cristo.
Existência dispensável.
Lourenço. 26 anos, alma de 60. Bíblia embaixo do braço. Terno de 300 reais. Apaixonado por Jesus Cristo. Existência dispensável.
- Tem algum tempo para a palavra do Senhor, meu jovem?
Tales. 19 anos, pulmões de 60. Garrafa de vodka sob o braço. Camisa do Pink Floyd de 10 reais. Apaixonado por nicotina e quem quer que estivesse em sua cama. Existência dispensável.
- Não. - respondeu, levando algo à boca.
Cigarro. Comprado havia 2 horas. Marlboro. 50 centavos. Existência indispensável para Tales.
- Vamos, filho, deixe Cristo salvar a sua alma.
Jesus Cristo. Filho de Deus. Idade desconhecida. Existência incomprovada, porém indispensável para Lourenço.
- Que porra de alma, cara?!
- A sua, irmão. Em Isaías, Jesus diz que...
- Cai fora.
- Aceita Cristo, irmão.
- Não sou o seu irmão. E cai fora.
- O Senhor tem um plano pra ti.
Risada. Causada por deboche.
- Você não quer ser salvo?
- Se ser salvo significa ser alguém como você, então não.
- Na Bíblia...
- Cara, você deve ser um infeliz. De porta em porta, tentando salvar os outros de suas próprias vidas, prometendo a felicidade. Então você é feliz assim, hã? Você é só um desgraçado com uma vida fodida tentando arrastar todo mundo para o meio da merda. E você ainda se considera salvo?!
- Há muito mais no Céu que...
- Tem baseado no Céu?
- Não.
- Então que se foda.
Porta. Aberta por curiosidade. Fechada por fúria.
Lourenço tinha 26 anos e alma de 60. Levava uma bíblia embaixo do braço, entoava um cântico, estava cabisbaixo. Virou a esquina, comprou um maço de cigarros. A partir daquele momento, não estava mais salvo. Apaixonado por Jesus Cristo.
Existência dispensável.
terça-feira, 8 de maio de 2012
Complexo.
Já perdi a vontade
Mas ó
Não dá nó
Na minha vaidade
Senão eu perco a rima
Tem dó
Clemência!
Pois o mero fato de tua existência
É uma afronta à minha autoestima.
quinta-feira, 22 de março de 2012
E eu nem sabia que era circense.
Acho que vivo num circo:
Fico em pé na fina corda
Mas morro de medo de cair
Porque aí seria palhaço
E não consigo te fazer rir
Minha mágica não te aborda
E barba não tenho, não
Malabarismo não faço
Não com o teu coração
E se não governo este picadeiro
Se não te domo e me abandona
O espetáculo é derradeiro
E coberto por uma lona.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Breve retardo.
Não sei mais escrever, não!
Paro sobre a caneta
e eta! Para onde foi a inspiração?
Penso se saiu porta afora
Louca, desvairada, sem espora
Ou talvez tenha se libertado
Da mente sem rimas de um retardado.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Parapeitos.
Parou ali, junto à sombra da cidade. Implorara aos céus por tanto tempo que fosse salvo daquela torrente de cabeças iguais toda composta de rostos iguais e que seguia incansavelmente no mesmo sentido para, no fim, alcançar o mesmo nada. Estava ali para salvar-se.
Parou ali, à sombra da cidade. E a sua própria sombra misturava-se aos traseuntes que, numa corrida contra o tempo, mantinham-se de cabeça erguida e olhos sempre à frente.
Parou ali, projetando a sua sombra sobre a cidade. Sobre uma faixa de pedestres que, ao contrário do senso comum, por si só, nunca salvou vida alguma. Ao contrário dos parapeitos, ah!, estes sim salvam vidas!
Parou ali, delineando a sua silhueta no horizonte da cidade. Os rápidos passos arrastavam-se numa cachoeira que desembocava horizontalmente para leste, para norte, para todos os lados. E, como uma cachoeira, não havia razão para desembocar; mas desembocava com todas as forças que possuía, apesar do caminho estreito.
Parou ali, acima das cabeças da cidade. Porque eram como gado, como cães adestrados, correndo atrás do senso comum: Pastando, correndo e fingindo de mortos; Matando, morrendo e fingindo de mortos.
Parou ali, à sombra da cidade. Sobre o parapeito. Sob o céu cinza. Então, sob o parapeito. Sobre a calçada. Escorrendo no asfalto, pelas vísceras da cidade.
E, de repente, era ele a maior prova de que parapeitos salvam vidas.
Parou ali, à sombra da cidade. E a sua própria sombra misturava-se aos traseuntes que, numa corrida contra o tempo, mantinham-se de cabeça erguida e olhos sempre à frente.
Parou ali, projetando a sua sombra sobre a cidade. Sobre uma faixa de pedestres que, ao contrário do senso comum, por si só, nunca salvou vida alguma. Ao contrário dos parapeitos, ah!, estes sim salvam vidas!
Parou ali, delineando a sua silhueta no horizonte da cidade. Os rápidos passos arrastavam-se numa cachoeira que desembocava horizontalmente para leste, para norte, para todos os lados. E, como uma cachoeira, não havia razão para desembocar; mas desembocava com todas as forças que possuía, apesar do caminho estreito.
Parou ali, acima das cabeças da cidade. Porque eram como gado, como cães adestrados, correndo atrás do senso comum: Pastando, correndo e fingindo de mortos; Matando, morrendo e fingindo de mortos.
Parou ali, à sombra da cidade. Sobre o parapeito. Sob o céu cinza. Então, sob o parapeito. Sobre a calçada. Escorrendo no asfalto, pelas vísceras da cidade.
E, de repente, era ele a maior prova de que parapeitos salvam vidas.
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