a sensação completamente nova inexplorada
de contemplar as superfícies que refletem
e procurá-las em seguida.
tudo parece estar oco por dentro
e tão profundo e tão delicado
não é preciso tesouro para ser precioso
eu tenho insistido em proteger o meu vazio
o vácuo que eu guardo despreenchido
o nada que é parte de mim
com os nós dos dedos eu confirmo
faz eco aqui
respirar onde não tem ar é a maior técnica que aprendi
e fingir não respirar é a segunda maior
sempre arestas pontudas
para fortalecer a defesa
para facilitar o encaixe
seja por mero espaço adjacente
seja por rasgar as atmosferas
as peças do quebra-cabeça
estão todas juntas desde que a criança
levanta a tampa da caixa de papelão.
e pra voltar a ser criança precisei
criar espinhos
ouça
a fonte de carinho que eu sou não seca
mas exige algo em troca. são quatro pactos.
roubar aqui significa prender o ar
com a parte de dentro das bochechas
e tentar segurá-lo ali
entre o céu, o palato
e uma língua pronta para permanecer imóvel.
ouvi passos indo embora e não fechei a porta
nada fiz
nada disse
estive muito pouco atenta aos caminhos que não estive
e todos eles me levam a crer
que estar é uma condição impossível:
ir também.
em estado de esvair-me, sigo
a um relance de perder as estribeiras
que sempre foram gasosas
celas sublimam facilmente
e se rematerializam em outras prisões
construídas muito dentro da coisa
profundas demais para ecoar
sou prisão e sou fumaça
sou pedra e sou as migalhas
sólida e não mais ali
abro a boca e fecho túneis
fecho os olhos e sinto lava.