há algumas crianças brincando de ciranda
dentro da minha cabeça
e é incrível o quão cruel pode ser uma criança
já que não tem nada a perder
ando arredia
como se estar entre gente que não me conhece
e consequentemente não pode me querer bem
fosse uma saída prum ócio milenar
ainda não existiu um lugar sequer
em que não me senti sozinha ou
ao menos
prestes a me ver ausente,
tudo escorrendo para longe de mim
tem sido mais fácil amar de longe
mas escolher é cada vez mais difícil
quando a única coisa que consigo sentir
é uma imensa apatia
viciada na sensação efêmera
de ser recém-chegada:
até que as estruturas do lugar
e as minhas próprias
se tornam tediosamente triviais
então retorno ao início de tudo
sigo em silêncio pleno
sem pedir socorro, afinal,
foram todas escolhas minhas,
expectativas que eventualmente frustraram-se
e meio à mercê, meio com tudo planejado
eu minuciosamente
vou me perdendo de mim mesma
e tudo o que eu achava que tinha antes
fica cada vez mais difícil de ter de novo -
tudo bem
acho que eu nunca quis nada além disso
faço ninhos em meu próprio cabelo
para que eu mesma tenha um lugar para retornar
no ponto mais alto de mim
quando as coisas caem no chão
é como se a gravidade e a realidade
fossem a mesma boca dando um recado:
ainda vivo longe demais das nuvens…
onde morar então?
pedaços vazios —
saber que era pra cá que eu voltaria
sempre me empolgou como uma forma de
finalmente
estar de volta
o ar não é mais rarefeito
a visão não anda mais turva,
pelo contrário,
adquiriu uma profundidade que nunca conheci antes
há um jeito de cicatrizar uma coisa
e a pele que ali cresce, depois de doer e coçar,
consegue ser mais forte do que a que estava ali antes;
talvez não pela aparência manchada,
mas por ter sido feita daquilo que era mais improvável:
sua própria morte
para esquecer é preciso de coragem
também
porque o retrato de mim que ela leva consigo
rapidamente não será mais eu; e respectivamente
lembrarei de alguém que não mais existe
me perguntarei se ainda amo alguém
que já foi levada pelo tempo
essa é a armadilha que armei para mim mesma
quando resolvi ficar a mais
sendo um alvo invisível
está tudo bem comigo;
exceto pela vontade imensa
de nunca ter largado tudo
como seria? onde eu estaria agora?
talvez aqui, no mesmo lugar
escrevendo fagulhas que um dia foram raiva;
e hoje não são nada
além de frustração, que, por sua vez,
às vezes se disfarça de sentimento nenhum
então é realmente como se eu não fosse capaz
de sentir.
todo um trajeto marcado por rastros de águas
que já evaporaram
quando choro é como se
eu voltasse fisicamente para o momento da memória
e então consigo dizer que pouca coisa mudou
desde a última vez que escrevi
aqui dentro sou a mesma criança
dura na queda, difícil de morrer
impossível de se convencer
a culpa por sentir tanto e saber
que nem todo ouvido está pronto
que nem todo abraço será acalanto
me condena a uma solidão silenciosa
embalada pelo gotejamento dos pingos
de lembrança líquida
eu lembro demais, de tudo
e o que eu me esforço para esquecer
parece ficar ainda mais aceso
porque essa dança não se pode dançar consciente
costurar seus próprios pedaços
depois ser frágil entre quatro paredes
pelo medo de ser vista mancando, ainda imperfeita
vale a pena?
foi muita água antes que eu me abrisse pra você
mesmo que agora pareça que eu não lembro mais;
mas o corpo lembra
espero os rios reassumirem seus cursos
recobrarem suas correntezas
enquanto navego essas histórias
num redemoinho
de todas as vezes que escrevi sobre você
essa é a que menos alivia
porque sei que agora te fazer carinho
só causaria mais dor
hoje que você ama outra pessoa
com disposição para amar sem limites
sem medos
sem chance de acabar sozinha sem saber
eu sei o que aconteceu,
mas não sei o que acontecerá agora
todas as vezes que ouvir My Mind
vou automaticamente sentir o mesmo frio na barriga
que antes era bom e agora é tão incômodo
ouvir Hugh Mundell cantar
que pensa na menina que o deixou e foi embora
olhar para nós e não saber
quem deixou quem