terça-feira, 16 de dezembro de 2025


agora que voar é saída
me demorar é impossível 
asas alugadas equivalem a pouco tempo
meus horários, vontades, desejos
passam na velocidade do som

ainda lembro sua voz 
e uma parte de mim ri de si mesma
a outra se retrai, a mesma que tem saudade
é incrível a facilidade de ficar viciada
nas reações químicas causadas
pelo beijo de alguém que te faz mal

não tenho tempo sobrando,
mas pra você eu abri outras dimensões 
efêmeras, ocultas, mas onde era possível 
fugir com você 

e agora que eu sei que nem era bom
agora que cai o véu da fantasia
me encontro esperando mais um voo decolar
sentindo a abstinência comer os meus neurônios 
e procurando no celular alguém que pudesse suprir
isso que você supriu em algum momento
mas que foi causado por outra pessoa

ganho os céus outra vez
para longe de você 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025


 há algumas crianças brincando de ciranda

dentro da minha cabeça

e é incrível o quão cruel pode ser uma criança

já que não tem nada a perder

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

 
ando arredia

como se estar entre gente que não me conhece

e consequentemente não pode me querer bem

fosse uma saída prum ócio milenar


ainda não existiu um lugar sequer

em que não me senti sozinha ou

ao menos

prestes a me ver ausente,

tudo escorrendo para longe de mim


tem sido mais fácil amar de longe

mas escolher é cada vez mais difícil

quando a única coisa que consigo sentir 

é uma imensa apatia


viciada na sensação efêmera

de ser recém-chegada:

até que as estruturas do lugar

e as minhas próprias

se tornam tediosamente triviais

então retorno ao início de tudo


sigo em silêncio pleno

sem pedir socorro, afinal,

foram todas escolhas minhas,

expectativas que eventualmente frustraram-se

e meio à mercê, meio com tudo planejado

eu minuciosamente

vou me perdendo de mim mesma

e tudo o que eu achava que tinha antes

fica cada vez mais difícil de ter de novo - 

tudo bem

acho que eu nunca quis nada além disso




quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Chão de espelhos

  

faço ninhos em meu próprio cabelo

para que eu mesma tenha um lugar para retornar

no ponto mais alto de mim


quando as coisas caem no chão 

é como se a gravidade e a realidade

fossem a mesma boca dando um recado:

ainda vivo longe demais das nuvens…


onde morar então?

terça-feira, 10 de setembro de 2024

 

pedaços vazios 

saber que era pra cá que eu voltaria

sempre me empolgou como uma forma de 

finalmente

estar de volta 

o ar não é mais rarefeito

a visão não anda mais turva,

pelo contrário,

adquiriu uma profundidade que nunca conheci antes


há um jeito de cicatrizar uma coisa 

e a pele que ali cresce, depois de doer e coçar,

consegue ser mais forte do que a que estava ali antes;

talvez não pela aparência manchada,

mas por ter sido feita daquilo que era mais improvável:

sua própria morte

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

 

para esquecer é preciso de coragem

também

porque o retrato de mim que ela leva consigo

rapidamente não será mais eu; e respectivamente

lembrarei de alguém que não mais existe

me perguntarei se ainda amo alguém

que já foi levada pelo tempo


essa é a armadilha que armei para mim mesma

quando resolvi ficar a mais

sendo um alvo invisível


está tudo bem comigo;

exceto pela vontade imensa

de nunca ter largado tudo

como seria? onde eu estaria agora?

talvez aqui, no mesmo lugar

escrevendo fagulhas que um dia foram raiva;

e hoje não são nada

além de frustração, que, por sua vez,

às vezes se disfarça de sentimento nenhum

então é realmente como se eu não fosse capaz

de sentir.

quarta-feira, 31 de julho de 2024


todo um trajeto marcado por rastros de águas

que já evaporaram


quando choro é como se

eu voltasse fisicamente para o momento da memória

e então consigo dizer que pouca coisa mudou

desde a última vez que escrevi


aqui dentro sou a mesma criança

dura na queda, difícil de morrer

impossível de se convencer


a culpa por sentir tanto e saber

que nem todo ouvido está pronto

que nem todo abraço será acalanto

me condena a uma solidão silenciosa

embalada pelo gotejamento dos pingos

de lembrança líquida


eu lembro demais, de tudo

e o que eu me esforço para esquecer

parece ficar ainda mais aceso

porque essa dança não se pode dançar consciente


costurar seus próprios pedaços

depois ser frágil entre quatro paredes

pelo medo de ser vista mancando, ainda imperfeita

vale a pena?


foi muita água antes que eu me abrisse pra você

mesmo que agora pareça que eu não lembro mais;

mas o corpo lembra


espero os rios reassumirem seus cursos

recobrarem suas correntezas

enquanto navego essas histórias 

num redemoinho