quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Uma vez na multidão.

Passavam rapidamente diante da minha vista, as pessoas. Ela passeou ao redor delas e então embrenhou-se, encolhendo os ombros, entre todos os traseuntes. Mas ela não era igual aos outros. Mesmo entre tantos, ela se destacava de modo tímido, delicado, sem muito alarde. Ia de um lado a outro, girava, tentava encontrar uma saída entre todos os ombros que barravam a sua passagem.
Cessei a minha andança ali mesmo, só para vê-la tentando abrir caminho entre o labirinto de indivíduos que eram, aos meus olhos, invisíveis e sem encanto algum.
Foi de um ombro a outro, de um empurrão a outro, até que seus joelhos cederam e ela se deixou cair neles, mas sem perder a suavidade dos jeitos.
Dirigi-me até ela, de mão estendida, sorriso no rosto. Eu poderia tê-la observado levantar de longe, com igual maciez, e se embrenhar na multidão, sem sequer imaginar que certa vez o meu olhar a espreitara. Mas teria eu oportunidade maior de olhá-la nos pequenos olhos e mostrar-lhe o quão importante aos meus olhos ela era? Que apenas a sua existência, uma vez embelezara toda um multidão em euforia?
Porém, ela não me deu a mão. Levantou-se, mas sequer mostrara interesse em me olhar na face. Limpou as roupas vagarosamente, sem preocupação, sem pressa. Depois deu-me as costas, sem fazer menção de que percebera a minha presença.
Impeli-me novamente em sua direção, persistente. Estendi novamente a mão, dessa vez almejando os seus ombros curtos e que mais pareciam de plástico tamanha era a delicadeza deles.
Ela virou-se em minha direção. Eu vi os seus olhos; e se esses eram eles, ainda não me foge a perplexidade. Com esses olhos frios que não lhe cabiam no rosto e que lhe dava na face a feição que a assemelhava a todos os outros.
- Não me toque.
Apenas isso disse e sumiu entre os outros rapidamente. Deixei-a ir, pois, não importavam os seus delicados ombros quando os seus olhos eram tão duros quanto pedra.

2 comentários:

  1. Adoro o jeito com que vc tece as palavras... tem uma certa textura nelas!
    =*

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  2. ' cara, você é muito no qe escreve. Adorei isso aqui!

    Nada importa mesmo se a alma não tem humildade e se o coração mostra através dos olhos tudo de bom qe ele deveria carregar.

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